sábado, 12 de fevereiro de 2011

Paródia em jeito dos Lenços de Namorados

Painel à laia dos Lenços dos Namorados ainda tão vivos no artesanato do Minho, sobretudo em Vila Verde.
Decora a sala da minha casa rural.
Aplicado no suporte comprado há anos numa liquidação de uma loja de artigos para o lar.
Para mim ficou encantador, apesar de se tratar de um simples trapo...
O que conta o simbolismo!


Desde sempre várias ladainhas presentes nas minhas memórias.
Uma conversa entre a minha avó materna e a avó paterna do meu marido, vizinhas na aldeia de Moita Redonda.

Finalmente, arranjei coragem e reproduzi-a numa cortina de algodão com renda que comprei na feira da ladra muito usada por 2€ com a Marília.

Decidi borda-la ao jeito dos típicos Lenços dos Namorados. Cores garridas, erros ortográficos,desigualdade nos pontos e tamanho das letras.

Trechos do livro de Memórias que tenho em mãos prestes a acabar, nele me baseei na paródia...As famílias dos meus pais não se gostavam, a minha avó materna Maria da Luz, alcunhou o meu pai "homem “iligante”, pernas aranhão de mina", pelos seus 1,92 m de altura. Mulher rude, habituada às lidas da aldeia, subir a encosta de barril na mão até à mina de água de S. João do Outeiro do Cuco, esventrada no xisto, comprida, escura, ambiente propício à sobrevivência de aranhões que por esse facto desenvolvem patas muito compridas e dai ela lhe fazer tal comparação.
A míngua de recursos, despertou na avó uma audácia sem igual, vira-se um dia para a minha mãe, “ Oh Dina as tuas galinhas estão muito magrinhas, vou leva-las para a aldeia, trato bem delas, vais ver por aí a chegarem ovos com fartura”. Sugestão aceite. Num ápice pediu cabanejos, enfiou as galinhas e de abalada se meteu na carreira onde se apeou ao alto de Lisboinha, mal se descuidou uma lhe fugiu às Alminhas…Mais tarde, a minha mãe pergunta-lhe pelas galinhas, ela altiva responde” oh filha “atão”, não as vendi na 1ª feira do Ovelar” retruca, indignada…“ a mãe disse que as ia engordar e agora diz-me que as vendeu…?” “ oh filha, foi para me suprir!”

Prenda de Natal no ano passado para o meu marido.
Chamei-lhe Paródia.

I'nha madrinha, olhe lá a corneta no Fojo, trará notícias de Insião?
Não, os belozes calharam mal no Natal e antes que o Pernas aranhão de mina atirasse com a frigideira, abalei de cabanejos abarrotar de galinhas.
Enfeirei no Ovelar, no alto de Lusboinha logo uma me fugiu ás Alminhas.
Ó afilhada Rosa, centa i'nha mensa, seia mais eu, oremos as duas padre nosso e avé Maria, benza a nós um bom dia, benza Deus. Amen.

Conta a minha mãe que se lembra do seu pai José Lucas ter recebido de uma amada do Vale Cego um grande lenço muito bem bordado em cores vivas, e versos de amor. Por a moça não ser do seu agrado,não o pôs ao pescoço, deveria tê-lo logo devolvido. Esse o sinal do homem que o recebia e por não estar interessado no compromisso com a rapariga. Desobedeceu ao ritual. Sendo que a minha mãe nasceu vinte e cinco anos após o casamento e ainda assim lembrar-se do lenço...é surreal.

A poesia que nos Lenços de Namorados se revela na forma de quadras populares, expressando o sentir do seu dono: amor, ternura, desejo, apreço, ansiedade, entrega, sinceridade, saudade, ciúme, desgosto. Raros são os lenços que não apresentam um ou dois dizeres, em quadras populares. As raparigas ouviam o coração e escreviam com a sabedoria popular, onde os erros de ortografia reinam, pois lembremos que a maioria das bordadeiras não sabiam ler nem escrever, limitavam-se a copiar letras e palavras. Aqui não se pode procurar concordância ou respeito pelas regras de ortografia. Há letras invertidas, letras que faltam ou que sobram, outras indecifráveis daí que seja necessário interpretar estes dizeres tão próprios do nosso povo. No entanto as quadras têm um elo em comum: o Amor, a temática subjacente à própria natureza dos Lenços de Namorados, onde é, na maioria das vezes, expressa por uma promessa de amor, como se pode constatar nas quadras seguintes: “A carta que eu te escrevo. Sai-me da palma da mão. A tinta sai dos meus olhos. E a pena do coração… Alguém escreveu um dia “Quando um homem, ou mulher se encontra fortemente apaixonado, tudo neles é poesia”…

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

SP porcelana de Coimbra Art Déco

Terrina em porcelana comprada em 1957 na vidraria Saul na baixa Coimbrã, depois do casamento dos meus pais.
  • Modelo para exportação " Angola" em Art Déco.
Decoração policromada em flores pintadas à mão com muito requinte numa imitação copiosa da pintura francesa.
Lembrei-me dela com o post da Maria Andrade.
Poucas peças restam, a minha irmã ficou com a terrina mais pequena. Alem desta peça tenho a saladeira e alguns pratos.Uma das características interessantes é a forma hexagonal das peças que lhe confere uma sobriedade ímpar.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Cabaz de verga branca

Cabaz de verga branca
Herança do meu marido. Ainda guardador de sonhos...gosto de olhar para ele e perder-me a deambular em sonhos...muitos sonhos!
Terá mais de sessenta anos. O bicho comeu-lhe um pé, não parei nem descansei enquanto o meu marido não me fez um novo com vime que ao ribeiro fui buscar ao salgueiro.
Parece novo, dei-lhe um jeito com verniz depois de ter posto cuprinol para matar o caruncho. Tantas vezes viajou na camioneta desde a paragem no Bairro aos Portelanos até Lisboa de parelha com outro que ficou para a irmã. Cheio a arrebentar as presilhas, uma mais tarde substituída por um cordel, só para não abrir e alguém esgueirar a mão e surripiar qualquer coisinha...Só coisas boas a lembrar a aldeia no sopé da Nexebra. Chouriças, morcelas com cominhos, feijão da velha, azeite, azeitonas retalhadas, queijos Rabaçal, nozes,laranjas, uma mão cheia de tremoços demolhados no poço, adoçados...
Os sabores inesquecíveis ouvia dizer...acredito!
Ainda um tapete feito de trapos no tear artesanal da Ti Joaquina em cores vivas, que teimei em guardar, o que me lembro das histórias dela e dos namoricos que a minha mãe sempre me contou...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Faiança de Viana ou Fervença(?)

Comprei este prato num site de leilões.Foi caro. Está muito partido, mas bem colado.

A fábrica de Fervença começou a laborar em 1824.Não marcavam as peças. No entanto no livro de José de Queiroz fala que algumas peças exibem no tardoz um risco a manganês.
Este prato apresenta o risco nessa cor e as cores refletem-se no tardoz.
O vidrado é muito brilhante, parece porcelana. 
  • Além do azul cobalto uma característica também o manganês  esborratado. 
  • Tardoz branco translúcido com reminiscências do azul cobalto em todo ele a  transparecem no esmalte.
  •  O mesmo já não se pode dizer da decoração - o jeito das ramagens das flores e dos malmequeres - vastamente copiada por outras fábricas: Miragaia, Bandeira ; Santo António da Piedade; Viana (Darque); Coimbra e,... 
Tinteiro da coleção do Museu Nacional de Soares dos Reis atribuído ao Séc XVIII - XIX da Fábrica de Miragaia
  • A Curiosidade : semelhança do manganês esborratado 
 
 A pergunta impõe-se: será o meu prato de Viana (?) ou Fervença?
Um antiquário disse-me à tempos que a loiça de Fervença se retratava no verso, é o caso desta. Mas já vi outra que não, depende da época e técnica de fabrico.

Faiança do norte de Gaia com flor de avenca a imitar o Juncal

Grande prato em faiança com motivo decorativo simples- ramos de avenca. Numa primeira impressão diz-se que é produção do Juncal. Numa s...