sexta-feira, 20 de março de 2015

Caminhar por Lisboa dei de caras na ruína da Olaria do Desterro

A semana passada no papel de "ama seca" levei o meu neto com pouco mais de quatro meses  no marsupio em caminhada de  três horas a percorrer muitos sítios da nossa Lisboa, no especial interesse deambular pelo Desterro, que desconhecia.
Após termos deixado o espaço havia de ficar a pensar na toponímia:
Rua do Forte
Rua do meio-Forte
Travessa do Forte
Debalde julgo os resquícios do Forte se enquadrem no espaço onde está implantado o Hospital do Desterro (?) no que foi o Convento de Nossa Senhora do Desterro dos finais do século XVI por impulso da ordem de Cister-, que o Joaquim António de Aguiar, ministro do reino, na história ficou conhecido como o "mata frades" pela lei  que promulgou de mandar extinguir conventos , mosteiros, colégios e afins em 1834.
Neste momento , o edifício encontra-se à venda.
A foto documenta a quina que segura o alto muro, que pode ser um dos vértices do Forte (?). 


Da Almirante Reis a subir a Rua Nova do Desterro, o alto muro do suposto forte(?)  na nossa direita, ao cimo deparei-me na lateral com uma escadaria, e ao fundo a igreja de Nossa Senhora do Desterro, restaurada no século XIX, neste agora com a porta em restauro.
Subi as escadas e encaminhei-me até ao muro de limitação a nascente, apresenta bancos namoradeiros em pedra, e o chão ainda com  empedrado de basalto, o primeiro usado nas primitivas calçadas.
Apreciei a vista sobre o castelo de S. Jorge...

Na entrada num canto de duas paredes de encosto este belo vaso em faiança que me lembrou a Fábrica do Desterro, mas não sei se aqui foi o seu local de fabrico(?) quiçá supostamente Devezas(?)
 Hospital do Desterro na fachada a placa com o nome da Rua Nova do Desterro
Uma pesquisa na Internet no mais saber sobre esta temática, encontrei a Dissertação de Mestrado de 2007  de Carla Antunes, submetida ao   Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa Departamento de Antropologia Departamento de História Olaria do Desterro: dos anos 60 à actualidade. Proposta de musealização. 
De paredes meias com  o antigo Hospital  do Desterro, a poente, situa-se a entrada para o Pátio onde laborou a Olaria do Desterro, supostamente  seria a entrada para a quinta do convento, no abandono com a extinção das Ordens Religiosas, os privados ocuparam(?). Apresenta-se com um simples portão aberto, que ao tempo os pilares ostentavam dois vasos vidrados em escuro, seguindo-se a calçada  negra de basalto, na ligação, na parede pintura do que resta da publicidade da Olaria do Desterro e, caixas de correio de outros ofícios que ao tempo laboraram, sendo que alguns ainda persistem.
"O Pátio do Desterro, ou Pátio das Indústrias, localizado na Rua Nova do Desterro e local depositário da Olaria do Desterro, nosso objeto de estudo, é assim designado pelos seus moradores e trabalhadores, em conversas informais. Apareceu também como Pátio do Desterro num roteiro de Lisboa, de 1848 (Vellozo, 1848). Corresponde à definição defendida por Leite de Vasconcelos e também às definições dos autores citados nas suas teses subjacentes à área da arquitectura. O pátio é um recinto de forma retangular, encontrado pelo percurso de um rua estreita, em calçada, paralela ao Hospital do Desterro. Tem número de porta, localizada junto a um portão de ferro. No seu interior existem uma casa de habitação, a olaria e outras oficinas de automóveis, de instalação recente. No pátio, além da olaria, houve uma serração, uma empresa de ar condicionado, outra de molas e amortecedores, uma oficina de restauro de móveis e uma casa de habitação."
Aqui reside a duvida lógica, acaso a Fábrica do Desterro no tempo se transformou em Olaria ?Ou são coisas diferentes?
"A olaria enquanto fábrica, iniciou a sua atividade durante a segunda metade do século XIX e encontrava-se ainda em funcionamento na altura da realização desta investigação (ainda que em contornos muito pouco significativos). "

"A Fábrica do Desterro foi fundada em 1889 na Rua Nova do Desterro por Campos, Neves & Branco, tendo um armazém na Rua da Prata 293 a 295."

"A Olaria do Desterro assumiu, desde o século XIX, um importante significado no panorama do desenvolvimento industrial da cidade de Lisboa, na medida em que refletia a memória coletiva de gerações de oleiros e olarias, atividade de grande tradição na cidade de Lisboa."

"A Fábrica do Desterro produziu inúmeras faianças e peças em pó de pedra. Foi concorrente de Sacavém e de Alcântara. Laborou durante cerca de 30 anos."
  • A pergunta impõe-se, a Fábrica do Desterro e a Olaria do Desterro laboraram no mesmo local ?
  • Supostamente a fábrica laborou 30 anos, depois passou a ser olaria até ao último oleiro na década 60/70?
  • Confidenciaram-me que o casal que morava no Pátio com o filho, morrerem os três nos últimos anos, nem sei se seria o oleiro... 
 "Existiam três fornos de lenha desativados, feitos de tijolo, com chaminé comum. Relativamente ao estado do imóvel, podía-se aferir, a olho nu, que o edifício se encontrava em adiantado estado de degradação. A Olaria encontrava-se dividida em dois andares, cada um com várias áreas funcionais: No rés-do-chão situavam-se: a zona do barreiro, onde era preparada e armazenada a matéria prima; a máquina de amassar o barro – a fieira; as rodas de oleiro (5) onde o barro ganha forma; os fornos (3) onde se cozia em chacota e em vidrado; a secção do vidrado, com a almanja (tanque); e o armazém."
  • Almanja: o tanque onde se dava o banho final à peça
"Em tese de mestrado sobre museologia pretende-se apresentar uma proposta de musealização da Olaria do Desterro, por ser um testemunho vivo de uma atividade industrial representativa de Lisboa. A Olaria do Desterro primava pela originalidade, exemplaridade e representatividade na medida em que espelhava uma atividade industrial da capital. 
  • Era um exemplar actual e único que representa a época em que o vasilhame de barro fazia parte do quotidiano, antes do plástico seu sucessor. 
Esta Olaria desempenhou um papel fundamental no comércio interno e externo designadamente na restauração (como comprovam as facturas daquela época).
Em Lisboa havia a Fábrica da Viúva Lamego, com utilização de barro branco, outra junto da Imprensa Nacional da Casa da Moeda (dos mesmos donos) e uma outra nos Olivais. 
Em Portugal, o património industrial, objecto de memória, é um paradigma em situação vulnerável, embora com grande futuro. Por tudo isto, pretende-se fazer um apontamento histórico-antropológico do objeto, com creditação do mesmo, de modo a que este não venha a cair no esquecimento, deixando gerações futuras alheadas da história da olaria artesanal em plena Lisboa.  
  • Assim, recorrendo a um informante direto, o último trabalhador da Olaria do Desterro e a dados documentais, reconstrói-se aquela realidade, de modo a criar bases para uma proposta de musealização. 
O estudo recai sobre o período entre, em 1964, data da entrada do oleiro na indústria e o Verão de 2007. Porém, obtiveram-se dados anteriores a essa data, o que permitiu uma melhor contextualização: os livros de cadastro, com referências desde 1930, e documentos de arquivos, relativos ao século XIX."
"Durante muitos anos, o barro provinha das Terras de Fernão Ferro, em Sesimbra e Vila Nova da Rainha. Antes da construção do Estádio da Luz, havia também nesse local, um barreiro13 . Segundo o informante, o barro vinha primeiro de carroça, passando posteriormente a vir de camioneta (lembra-se de ter ouvido o patrão falar). As toneladas de barro chegavam e eram depositadas no centro do pátio e com o auxílio de um carro de mão, o barro era transportado, em pequenas quantidades, para o interior da olaria."
"A loiça produzida na olaria era loiça vermelha, utilitária, vidrada e não vidrada e algumas peças decorativas obtidas através de moldes.
  • Durante muitos anos, produziram vasos de flores, para as ruas da capital. A Câmara Municipal de Lisboa foi por isso, durante muitos anos, um dos clientes principais. Depois, a passagem para o fabrico de vasos de máquina, em Barcelos, a produção deixou de ser viável
Na Olaria produziam-se peças vidradas e não vidradas consoante a finalidade a que se destinavam: as primeiras para a confecção de alimentos ao fogo, as segundas para o transporte ou conservação de alimentos.
  • Como o vidrado era bastante caro, só se vidravam as peças no interior. 
O vidrado compunha-se de zarcão, pó de pedra mármore (padroneira) e chumbo (havia uma fogueira sempre a arder onde se utilizavam as baterias de barcos e carros como combustível). A mistura destes componentes era executada num moinho mas depois da sua venda (devido à proibição de produção aleatória de vidrado), a mistura passou a ser efetuada manualmente com o auxílio de instrumentos de medida. Depois da aplicação do vidrado, adquirindo tonalidade branca, as peças eram novamente colocadas no forno.
A pessoa que vidrava os objetos mergulhava-os na almanja, onde estava a mistura líquida de vidrado usando apenas as mãos. Ao lado daquele tanque existiam dois potes com água para lavagem das mãos. O oleiro, por último, já não utilizava a almanja por ser demasiado baixa e ter de se curvar para a utilizar. Utilizava antes um alguidar com uma mistura de R100 e R18, um preparado de vidrado, colocado na mesma zona, perto dos fornos de lenha e não do forno a gàs."

  
 Na frontaria da Rua Nova do Desterro o armazém ou loja?
"Assim, dando-se conta dos fatos históricos e antropológicos da Olaria do Desterro, justificase a importância da sua salvaguarda e possível musealização, passando pela urgente preservação do espaço. Por isso, desencadeou-se a proposta de Classificação Municipal, pela Câmara Municipal de Lisboa, a qual se encontra em curso. Por outro lado e pela provada importância deste objeto de património industrial, resgatou-se, o seu espólio em conjunto com a equipa do Museu da Cidade: utensílios de trabalho e peças produzidas." 
A caminho da descoberta do Forte, no tardoz a poente na Rua da Cruz do Desterro, reparei num muro que divide parte do terreno da Olaria do Desterro.
  • A toponímia: Rua do Forte  Travessa do Forte e da Rua do Meio Forte.Muita azulejaria supostamente da Fábrica da Viúva Lamego, que lhe fica em baixo na Almirante Reis.
A norte havia de encontrar um espaço largo só com entrada para um "Pátio" onde existe um Lavadouro Municipal em abandono, o mesmo de casario, sucata,  parque de carros, apenas vivo um pólo de armazém da Junta de Freguesia da Pena.
 
Falei com uma moradora da Rua das Salgadeiras, que desce para o Largo do Mastro, curiosamente me diz que no espaço rectangular que se distingue na foto, estreito com erva, foi outrora uma casa onde morou uma mãe com 8 filhos... e agora as pessoas só querem casas grandes!
Um pequena placa de pedra com a indicação património da câmara
Pois fiquei sem certezas, na quase certeza, analisando a envolvente do espaço tudo  aventa  que a toponímia está certa, e que o Forte aqui ter existido desde o Hospital do Desterro até este Pátio suportado também por altos muros.
Na volta a descer descobri através duma fresta deste jardim uma chaminé da olaria do Desterro.
Abordei quatro mulheres moradoras há mais de 70 anos no tardoz da olaria, referenciaram das suas lembranças aqui na Olaria terem comprado vasos em cerâmica para os manjericos, e também os faziam em vidrado que nos Bairros Novos ainda ostentam na frontaria a ladear as janelas. Compravam também os fogareiros, pois dantes o peixe assava-se na rua, e compravam outros em miniatura para queimar alecrim para tirar o cheiro a mofo e humidade das casas.
Vista da Olaria da Almirante Reis
  • No google descobri  peças  e marcas da Fábrica do Desterro
No Museu da Figueira da Foz
Fragmento de painel com cabeça de mulher. Pintura à mão (Fábrica do Desterro)
Não sei se na casa na mesma rua, defronte do portão  da Olaria se os painéis serão daqui do Desterro
 
Azulejo arte nova relevado Desterro, também em castanho e verde
Friso da Fábrica do Desterro 

Há anos vi numa feira uns pratos pintados a tom castanho aberto, marcados Desterro e também um penico.

  • Não tenho nenhuma peça desta fábrica, tenho supostamente da olaria, dos últimos anos de laboração; assadadores de barro para o chouriço; enfusas, mas loiça fina nada!
Pertinente questionar para quando a revitalização do local?
Fontes:
file:///C:/Documents%20and%20Settings/Isabel/Os%20meus%20documentos/Downloads/Microsoft%20Word%20-%20Corpo%20de%20Tese-Olaria%20do%20Desterro%20(3).pdf
http://mercadoantigo.weebly.com/desterro.html
http://anibaljosedematos.blogspot.pt/2012/02/azulejos-no-museu-da-figueira-da-foz.html
http://traposcacosevelharias.blogspot.pt/2011/07/azulejos-do-desterro-arte-nova.html
http://palaciodasvarandas.blogspot.pt/2011/11/arte-nova-nos-azulejos-em-portugal.html
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=395114&page=2

9 comentários:

  1. Cara Isa Coy,

    Postagem soberba sobre a olaria/fabrica (?) do Desterro.

    Que tenha conhecimento, a primeira, e com um desenvolvimento e um complemento fotográfico de relevo e interessantíssimo.

    Parabéns! Todos nós agradecemos.

    Mais postagens, como esta são sempre bem-vindas e agradecemos.

    Bom fim de semana,

    Jorge Gomes

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    1. Caro Jorge Amaral bem haja pela cortesia da visita e pelo elogio no comentário.
      Retribuo o bom fim de semana
      Cumprimentos
      Isabel

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  2. MIsa,

    Quem me dera andar por estes largos, ruas e becos e encontrara tanta história escondida...

    Mas dá um sentimento de perda também. Então penso sempre que este nosso juntar peças velhas e cacos é desejar e fazer o que está ao alcance para que aquilo que foi feito com empenho possa perdurar.

    Um dia desses encontrei um grande vaso como este, estava inteiro mas totalmente recoberto de musgo e pó do tempo. Que alegria. Mas faltava uma confirmação. Peguei a ponta do canivete e comecei a decapar na base. Nada de encontrar um rosado ou branco amarelado... Que pena. Er alvenaria mesmo. Muito antigo mas alvenaria moldada tão somente.

    Sempre juntos.

    Um abraço.

    ab

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    1. Caro Amarildo muito obrigado pelo comentário. As cidades tem esse fascínio de nos perdermos , sem perder e encontrar autenticas belezas.Que pena o vaso não ser faiança, Imagine hoje ofereceram-me para comprar uma estatueta em faiança que foi supostamente "retirada" da platibanda de uma casa e não devia, e azulejos sec XVIII , alguns agarrados a pedras...
      Um abraço
      Isabel

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  3. O quanto gostei de ler este seu artigo!!! Vim dar aqui numa busca no Google para saber se havia alguma olaria em Lisboa. Gostei muito de ter o conhecimento histórico deste local com tantas dúvidas que torna o assunto ainda mais interessante em se investir num espaço museológico ou com fins comerciais e recuperar dentro de Lisboa a ideia que antes dos plásticos e restantes materiais que utilizamos como recipientes para quase tudo, o material era o barro! E não foi assim há tanto tempo! Como muda o imaginário do quotidiano lisboeta só com este material ter sido substituído! Gostei de saber sobre o vidrado que era mais caro, curiosamente com chumbo, logo cancerígeno, dos penicos que o meu avô usava (como os hábitos eram diferentes) e da queima do alecrim! Hoje queimamos insenso ;) globalização altera por completo a realidade cultural e social. Muito obrigada pelo seu trabalho de investigação e pelas fotografias que ilustram tão bem um espaço aqui no centro de Lisboa por enquanto esquecido, talvez um dia relembrado.

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    1. Cara Rosa Baptista muito obrigada pela cortesia da visita e pelo elogio no comentário. Algumas crónicas deste blog tem merecido iniciativas que me deixam no mínimo feliz, seja coincidência, ou de outros no mesmo interesse em exercer o dever de cidadania em abordar o que está menos bem com crítica construtiva. Sendo Lisboa a capital com tanto problema para resolver, a talhe de foice, posso dizer-lhe que entre a Almirante Reis e o Bairro Inglês, existe uma quinta doada à câmara onde laborou uma marcenaria que está há mais de 50 anos desativada. Como deve calcular além do matagal e canavial, a alta matéria combustível e ratos.Dei-me ao trabalho de percorrer as ruas da envolvente quinta para perceber a malha urbana e ainda ver as hipotéticas entradas, fotografei, e fiz a crónica que enderecei à junta de freguesia de Arroios e para o vereador Sá Fernandes da câmara. Foi há meses, já começaram a retirar os entulhos, e hoje estava uma equipa a retirar amianto. O importante é abordar a temática e apresentar soluções para quem de direito analisar mais rapidamente e assim tratar o assunto.
      Em relação à Olaria a meu ver será mais complicado porque o hospital encontra-se à venda e supostamente quem o comprar deve estar interessado no restante espaço(?), teria de haver uma parceria entre as partes. Estou convicta que o espaço será preservado como merece.
      Bem haja
      Um abraço
      Isa

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  4. Muito obrigada pela sua Investigação e procura de fontes bibliográficas. Agradeço muito.

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    1. Cara Silvia Pereira bem haja pela cortesia da visita e pelo comentário

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  5. Muitos parabéns, aprendemos sempre imenso ao ler este blog. Bem haja pela divulgação do nosso património que tão ameaçado está .Cumprimentos Lina Duarte-

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