Rouca a broca manual para fazer "Gatos" nas faianças

Por sorte na feira da Costa vi este exemplar, pediram-me 10€, ainda era cedo o vendedor arrumava o estaminé, queria estrear-se, ofereceu-ma por 5€, mas não quis. Dei meia volta, convenci os meus que adorava ter a peça, tive a sorte da minha filha também a ter apreciado, voltei, e trouxe-a orgulhosa de braço dado... não fosse a rouca furar o que não devia...
Perguntei a sua origem, um hábito que gosto. Disse-me veio tudo da Covilhã.(balança de madeira, camita de bebé em ferro e...
Ultimamente nas feiras já vi 3  roucas manuais de furar faiança deste tipo.
Esta rouca mais moderna, o fuso torneado à máquina, as que se encontram ainda à venda que comprei para o meu amigo Arnaldo Silva
Contudo todas mais modernas, torneadas a torno, mais recentes, feitas em marcenaria.
A 1ª era enorme na feira da Costa. Linda para estar num Museu.
Curiosamente as outras duas no mesmo vendedor, alentejano, mais pequenas uma logo a vendeu, ainda andará com a outra?
Como se põe a trabalhar. A peça para furar emana um movimento giratório fantástico que lhe é conferido pelo cordel que tem o segredo. Dá-se meia volta ao pau ao mesmo tempo que se impulsa a haste de madeira que está a atravessar, fletindo para baixo e cima. Obriga a rouca a girar, no caso a furar.
Desde miúda que me fascina este tipo de utensílio.Acredito deve ter um nome caraterístico. Ainda vou investigar falando com algumas pessoas mais velhas.
Usado por amoladores galegos na raia e grandes cidades. Na província era feita pelos amoladores que faziam os trabalhos à porta do freguês.
Nos meados dos anos 60 havia um homem maltrapilho,vivia de fazer trabalhos avulso, "gatos" nas faianças, arranjava varetas nos chapéus e amolava(afiava) facas e tesouras.
O meu marido também se lembra do seu avô paterno fazer os furinhos e pôr os gatos nas bacias, pratos de faiança. A sua broca manual era diferente desta. Lembra-se que a broca enrolada a uma cordel atado ás mãos, fazia um impulso em jeito de arco com água para ajudar a furar, claro que antes para não resvalar o furo por causa do vidrado fazia com um furador o inicio do buraco que depois era alargado e mais profundo com a broca.Usavam uma cola resistente ao quente e frio à base de clara de ovo.

Mote que me fez recordar uma lengalenga passada nesse tempo entre a minha avó materna e a minha mãe.

Perguntava a minha mãe à minha avó
" Oh mãe, o Pelaralho veio cá  pôr os gatos no alguidar?"
Responde a minha avó
" Veio, veio-,o filho da puta levou-me vinte cinco mé réis.
Retorquiu a minha mãe
" há pois, vinte cinco mé réis e o cu cheio de vinho..."
Apressa-se a responder a minha avó
"Não filha -,hoje o cu foi mal cheio, porque tinha cá pouco para lhe dar..."

Não resisti a rescreve-la no meu livro de memórias.
Esta rouca é muito interessante pela antiguidade.
O fuso em redondo foi talhado " à unha" isto é a canivete, tal como os africanos o fazem na sua arte de esculpir a madeira. Nota-se que a peça de madeira ao meio é mais nova do que o fuso e o pau que nele enfia.Trazia uma corda em plástico azul.O meu marido limpou a peça, colou o pau que estava partido, mudou a corda deu-lhe um novo ar mais adequado à época.
O tardoz de uma travessa em faiança de Coimbra. Podem ver-se os furinhos  feitos com uma peça do género apresentado ( broca)  e alguns "gatos" de ferro.

Sonho em pô-la no espaço que penso abrir...Não digo mais nada!
Por enquanto está na parede da minha sala. 
O habitual homem  que percorria as ruas para arranjar as varetas dos chapéus de chuva, afiar facas e tesouras e claro pôr gatos na loiça partida

Comentários

  1. AMIGA , QUE LINDO!!!!
    Não conhecia esta peça...muito interessante, muito mesmo!
    Nossa! será que por aqui tambem existia ou existe peças assim?...é uma preciosidade né?
    Vou mostrar ao meu marido...tenho certeza que ele tmbem nunca viu
    bjs
    Tina (SONHAR E REALIZAR)

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  2. Olá Tina. Muito obrigada pelo seu comentário.

    De fato é uma peça extraordinária. Os antigos eram sábios apesar de pobres,não deitavam nada fora antes de tentarem arranjar.
    Acredito que por terras de Vera Cruz também exista. Levámos muito de usos e costumes para o Brasil, acredito que esta broca manual também. Havia outra forma de fazer os buraquinhos mais artesanal, pausinho com a ponta de broca e um cordel enrolada às mãos que fazia a frição. O avô do meu marido tinha um destes.

    Os pratos, toda a faiança que se partia era arranjada com os "gatos" e voltava a servir.

    Beijos
    Isabel

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  3. Antiquario de Braga7 de junho de 2011 12:13

    Espaço que pensa abrir?!!!
    Então as loiças antigas que a outra senhora,Jacqueline lhe vai oferecer,vão ser para venda?
    Porque apagou o meu recado?
    Ai,ai malandrinha

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  4. Sr. antiquário de Braga
    Apaguei o seu comentário porque o achei deselegante e inapropriado pela oferta monetária sem sequer ser interveniente no assunto nem tão pouco conhecer as peças. Sendo o blog propriedade minha confere-me o direito de o fazer sempre que tal ache oportuno.
    Sim, de vez em quando faço feiras de velharias.
    Também é verdade que vou abrir um espaço soft onde o antigo e o moderno tornará o ambiente um lugar de eleição. Não será um mero antiquário a abarrotar de coisas e loisas onde o espaço reduzido nem dá para respirar a maioria das vezes, sem preços afixados e quando se pergunta, o mesmo é feito demoradamente enquanto traçam o perfil da pessoa e castigam forte e feio!
    Sei que há antiquários e antiquários.
    Sou reservada no conceito conservador que tenho deles. Sendo uma mulher moderna acompanho as modas e vou entrando, o último no sábado ao pé do castelo de Lisboa mando-me o recado...entram, espiolham e não compram nada e ao fim do dia ainda tenho de limpar o chão que sujam...

    Fique bem
    Sou uma mulher de paz
    Volte sempre
    Isabel

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  5. Muito interessante e curiosa a broca de madeira para lançar "gatos" nas peças que se partiam e eram aproveitadas ad infinitum... Quão diferentes são os tempos hodiernos em que tudo se aliena, quando deixa de ter uso!
    Há tempos, quando fazia uma pesquisa para um trabalho que estou a desenvolver, encontrei num Diário Illustrado do ano de 1872,uma imagem e respectivo artigo sobre o "concerta loiça".Afirma o autor, a certa altura, que o ultimo representante tinha sido encontrado nas Caldas. Chamava-se Sebastião e "ja se lamentava de que se não fazia nada pelo officio".
    Será que, entre as suas ferramentas, também estaria uma broca como a sua?
    Cumprimentos
    if.

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  6. Bem vinda ao meu blog If. Muito obrigada pelo seu comentário.

    Concerteza que esta peça fazia parte da maleta do ofício de concertador de loiça.
    Sabe que as havia de todos os tamanhos?

    O LuÍSY quase no inicio do blog mostrou uma das modernas em ponto pequeno muito airosa.

    Estas maiores seriam para grandes pratos que os havia com mais de 30. 40 e 50 cm de largura. Ainda na última feira de Algés vi dois, bolestados, baratos, 25 € cada. Um deles pela policromia forte e rara um espanto. Ratinhos, como gostamos, o outro exageradamente grande diria 50 cm, nunca vi nada assim com flores em cor de grão.
    Este tipo de bronca grande diria seria para estes tamanhos e palanganas.

    Cumprimentos
    Isabel

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  7. É curioso que já me tinha ocorrido lançar um desafio, tinha pensado no "Velharias" do Luis, para alguém abordar este assunto dos restauros com gatos. Nós não lhe damos grande valor mas, se não tivessem sido estes artífices de outros tempos, muitas peças tinham desaparecido para sempre e não as teríamos hoje em casa. Falo, por exemplo, do meu prato da fábrica do Juncal de que gosto tanto.
    Existe uma publicação, muito interessante, que aborda o restauro da faiança e da porcelana em Fraça.
    Lá, como cá, também existiu o restaurador ambulante, tem mesmo uma gravura que o representa, mas, a curiosidade que mais me fascinou foi a imagem de um prato de faiança do sec.XVII restaurado com gatos tipo sec.XIX, num número que ultrapassa os 100, não estou a exagerar, todos na parte de trás, e que tem a particularidade de o artífice ter assinado com agrafes, também, o seu próprio nome.
    Logicamente que está no Museu Nacional de Cerâmica de Sèvres.
    Obrigada por ter mostrado a broca que comprou. Já conhecia uma mas muito mais tosca.
    emília reis

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  8. Muito bem vinda ao meu blog Emília Reis. Ainda por cima com um apelido de se lhe tirar o chapéu.
    Obrigada pelo seu comentário muito interessante e que completa em excelência o meu. Os franceses sempre estiveram à nossa frente em tudo ou quase.... Quem sabe se a origem dos "gatos" veio com eles aquando das invasões francesas?Coisa de 200 anos.Até esse tempo o povo comia em loiça de barro e talhada na madeira.Nessa altura a loiça ratinha veio colmatar essa lacuna, mais grosseira e barata.

    Cumprimentos
    Isabel

    Ainda ontem na feira da Costa vi mais duas peças destas, uma maior que a outra das mais modernas feitas a torno, o fuso tipo um pião.

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