Paródia em jeito dos Lenços de Namorados

Painel à laia dos Lenços dos Namorados ainda tão vivos no artesanato do Minho, sobretudo em Vila Verde.
Decora a sala da minha casa rural.
Aplicado no suporte comprado há anos numa liquidação de uma loja de artigos para o lar.
Para mim ficou encantador, apesar de se tratar de um simples trapo...
O que conta o simbolismo!


Desde sempre várias ladainhas presentes nas minhas memórias.
Uma conversa entre a minha avó materna e a avó paterna do meu marido, vizinhas na aldeia de Moita Redonda.

Finalmente, arranjei coragem e reproduzi-a numa cortina de algodão com renda que comprei na feira da ladra muito usada por 2€ com a Marília.

Decidi borda-la ao jeito dos típicos Lenços dos Namorados. Cores garridas, erros ortográficos,desigualdade nos pontos e tamanho das letras.

Trechos do livro de Memórias que tenho em mãos prestes a acabar, nele me baseei na paródia...As famílias dos meus pais não se gostavam, a minha avó materna Maria da Luz, alcunhou o meu pai "homem “iligante”, pernas aranhão de mina", pelos seus 1,92 m de altura. Mulher rude, habituada às lidas da aldeia, subir a encosta de barril na mão até à mina de água de S. João do Outeiro do Cuco, esventrada no xisto, comprida, escura, ambiente propício à sobrevivência de aranhões que por esse facto desenvolvem patas muito compridas e dai ela lhe fazer tal comparação.
A míngua de recursos, despertou na avó uma audácia sem igual, vira-se um dia para a minha mãe, “ Oh Dina as tuas galinhas estão muito magrinhas, vou leva-las para a aldeia, trato bem delas, vais ver por aí a chegarem ovos com fartura”. Sugestão aceite. Num ápice pediu cabanejos, enfiou as galinhas e de abalada se meteu na carreira onde se apeou ao alto de Lisboinha, mal se descuidou uma lhe fugiu às Alminhas…Mais tarde, a minha mãe pergunta-lhe pelas galinhas, ela altiva responde” oh filha “atão”, não as vendi na 1ª feira do Ovelar” retruca, indignada…“ a mãe disse que as ia engordar e agora diz-me que as vendeu…?” “ oh filha, foi para me suprir!”

Prenda de Natal no ano passado para o meu marido.
Chamei-lhe Paródia.

I'nha madrinha, olhe lá a corneta no Fojo, trará notícias de Insião?
Não, os belozes calharam mal no Natal e antes que o Pernas aranhão de mina atirasse com a frigideira, abalei de cabanejos abarrotar de galinhas.
Enfeirei no Ovelar, no alto de Lusboinha logo uma me fugiu ás Alminhas.
Ó afilhada Rosa, centa i'nha mensa, seia mais eu, oremos as duas padre nosso e avé Maria, benza a nós um bom dia, benza Deus. Amen.

Conta a minha mãe que se lembra do seu pai José Lucas ter recebido de uma amada do Vale Cego um grande lenço muito bem bordado em cores vivas, e versos de amor. Por a moça não ser do seu agrado,não o pôs ao pescoço, deveria tê-lo logo devolvido. Esse o sinal do homem que o recebia e por não estar interessado no compromisso com a rapariga. Desobedeceu ao ritual. Sendo que a minha mãe nasceu vinte e cinco anos após o casamento e ainda assim lembrar-se do lenço...é surreal.

A poesia que nos Lenços de Namorados se revela na forma de quadras populares, expressando o sentir do seu dono: amor, ternura, desejo, apreço, ansiedade, entrega, sinceridade, saudade, ciúme, desgosto. Raros são os lenços que não apresentam um ou dois dizeres, em quadras populares. As raparigas ouviam o coração e escreviam com a sabedoria popular, onde os erros de ortografia reinam, pois lembremos que a maioria das bordadeiras não sabiam ler nem escrever, limitavam-se a copiar letras e palavras. Aqui não se pode procurar concordância ou respeito pelas regras de ortografia. Há letras invertidas, letras que faltam ou que sobram, outras indecifráveis daí que seja necessário interpretar estes dizeres tão próprios do nosso povo. No entanto as quadras têm um elo em comum: o Amor, a temática subjacente à própria natureza dos Lenços de Namorados, onde é, na maioria das vezes, expressa por uma promessa de amor, como se pode constatar nas quadras seguintes: “A carta que eu te escrevo. Sai-me da palma da mão. A tinta sai dos meus olhos. E a pena do coração… Alguém escreveu um dia “Quando um homem, ou mulher se encontra fortemente apaixonado, tudo neles é poesia”…

Comentários

  1. Olá Isa
    Bons olhos a vejam!

    Todas as famílias, das mais ilustres às mais humildes,têm as suas desavenças;as questões, que algumas vezes não passam de meras questiúnculas, são, infelizmente, comuns a muitas famílias.Então, quanto maior é a proximidade física maior são as hipóteses de conflito.As emoções familiares são muito difíceis de gerir...:)

    Achei muito interessante a sua ideia de passar a bordado a conversa entre madrinha e afilhada. De facto, o estilo, faz lembrar o dos lenços dos namorados, de Vila Verde.
    Quando os meus filhos eram crianças,fiz um trabalho idêntico, mas decalcando um dos seus desenhos para um pano cru, que depois bordei.Posteriormente mandei fazer umas almofadas. Ficaram muito giras e a catraiada delirou! Viram os seus trabalhos valorizados e, quem não gosta?
    Um abraço para si
    Maria Paula

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  2. Obrigada Maria Paula pelo seu testemunho.
    Também a adorei rever.
    Boa semana de trabalho
    Beijos
    Isabel

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  3. Também achei q foi uma ideia muito gira, produto de uma imaginação criativa q a Maria Isabel já aqui provou ter por várias vezes.
    O painel ficou muito engraçado e o suporte é belíssimo!
    Houve outra coisa a q eu achei graça - somos as três de uma geração de raparigas q ainda aprenderam a bordar!!!
    Fartei-me de bordar cantos de fraldas para os meus filhos e um ou outro lençolzito,numa tradição q já vinha da minha mãe e da minha avó materna. Agora a minha filha, que obviamente não sabe bordar, está a utilizar com o Gabriel roupas de cama q já ela e o irmão usaram e eu própria usei em bebé. A minha mãe um dia destes foi ver o bisneto, viu na cama dele um lençol q ela tinha bordado para mim, mas já não se lembrava dele porq eu é q o tinha guardado e disse para a minha filha: "Isto parece q me passou pelas mãos..."
    Alonguei-me demasiado com histórias q não lhe dizem respeito, peço desculpa, mas graças ao seu bordado,o meu pensamento fluiu assim e a escrita acompanhou...
    Beijos

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  4. Adorei o seu testemunho Maria Andrade.
    Como sempre ternurento, senti-me na mesma praia.

    Também bordei o enxoval da minha filha, comprei os tecidos nos armazéns do Chiado, em casa o meu marido os cortou e fez as almofadas pequeninas. Também usei um lençol que era do meu pai bordado e guardei e voltei a usar nela.

    As histórias repetem-se. Tudo ainda hoje guardado na mala que serviu o meu enxoval.
    Um dia também por certo a minha filha quererá usar com os filhos, fez questão em os manter.
    Adorei reviver estes momentos
    Beijos
    Boa semana
    Isabel

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