quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Faiança de casario pintada a vinoso de Coimbra norte ou Caminha (?)

Para mim um belo prato, a minha prenda de Natal. A pintura à mão abrange o todo, sem filetes, em monocromia a vinoso-, uma tonalidade obtida do manganês A decoração apresenta ao centro uma igreja vista de perfil, com duas torres, uma delas com cruz no alto, e arcadas do alpendre, ladeada por rodapé em esponjados com términos de bicos de onde emergem ramagens suportadas por gavinhas.

Fascinante o brilho do esmalte a chumbo.
Esta foto mostra a tonalidade vinoso na sua beleza estonteante
O tardoz revela que o prato foi submetido a um banho branco, que bem pode ser de calcário (?) vejam-se os arrepiados onde não "agarrou" com a cor do barro de que foi feito na roda do oleiro em tom rosado.
Em Coimbra pintou-se esta decoração  antes do uso da estampagem por volta de 1850? Sob este rodapé em jeito de bicos, tal como no norte, em Miragaia, Cavaco, não sei se noutras.
Este casario tem muita semelhança com o que viria a ser pintado pelo José Reis quando abriu a sua olaria em Alcobaça, que até se aventa que este casario é a sua miragem do Mosteiro de Alcobaça(?).
  • Exposição do Museu Dr Jorge Sampaio em Alcobaça, onde se destacam dois pratos iguais pintados a preto, sendo a decoração mui semelhante ao meu, mas com nítidas diferenças.
José Reis sendo mercador, levava o barro de  melhor qualidade de Alcobaça para Coimbra e na volta levava loiça para vender.Há quem defenda que o mesmo nunca foi oleiro em Coimbra. Mas como poderia ele não ter sido? Como se atreveria em abrir uma olaria  em 1875, sem nada saber da arte  em trabalhar o barro, decantar, secar, moldar à mão e na roda, pintar, esmaltar, ainda a sabedoria das doses de barros na mistura certa para não partir no forno, das percentagens dos produtos para fazer as cores, onde as comprar, da temperatura do forno para as duas cozeduras, afinal  tanta arte -, e depois não era oleiro quem queria, tinha de fazer exame. 
Obviamente  que durante o primeiro quartel do século XX houve oleiros familiares que de alguma forma sendo aprendizes e ajudantes nas olarias, nos dias pequenos em que a noite acontece mais cedo, faziam a sua própria loiça para levarem para as ceifas para o Alentejo, ou vender ganhando uns trocados -,  o foi em Coimbra debaixo da linha do caminho de ferro, e nas Beiras, que viriam a dar nome a aldeias como Carvalhal da Loiça perto de Nelas, entre outras toponímias ainda vivas no País.
Antes no Juncal,  um seixo abundante na região esmagado na mó de oleiro com vinagre dava uma cor em tom amora, que sendo feita manual sem rigor a mesma  na loiça se viria a mostrar em várias tonalidades.
A dúvida passa por identificar se este prato foi pintado por José Reis em Coimbra, ou na olaria  em Coimbra onde ele viu  amiúde esta pintura e aprendeu a ser oleiro, ou quiçá  Caminha , Vilar de Mouros que como se sabe  a sua loiça foi copiada à imagem do que se fazia em Coimbra.Porém nunca vi nada assinado de Vilar de Mouros, sendo o casario  que se tem visto atribuído, nada tem haver com o deste prato.


Sinto que já irritei gente (?) com esta minha perseverança, mas em tanta peça que já me passou pelas mãos, sendo esta em paralelo com outro grande prato, do mesmo modo assim pintado com uma pastora da minha amiga Isa Saraiva, para mim acredito, inegavelmente produção de Coimbra..."com seses" ao esmalte  que tem laivos de PORCELANA, que pode ser dos irmãos rua de Caminha, ou norte Gaia ?
Há que perder medos e avançar, mesmo que se constate à posterior outra atribuição. Para não falar de peças que existem mal catalogadas em Museus, não me perturba ser assim, atrevida, sendo sempre fiel ao meu olhar sempre fundamentado no que acredito, até descobrir sempre mais, e se for necessário e achar que me enganei, volto a corrigir, e disso não acho mal nenhum nesta arte que é de muita paixão, e a paixão tolda-me sempre as vistas, pelo menos a mim, acabei de o receber via correio enviado por um amigo do Face, que vende velharias, José Rocha -, há anos que nada comprava via net. Muito bem acondicionado, não resisti logo a mostra-lo, porque é muito mais deslumbrante que na foto que ele me mostrou. Sou  mulher vaidosa, sei, desculpem!
É soberbo, um deleite o brutal orgasmo inteletual que o mesmo gerou em mim mal o tirei do invólucro.
Haja alguém que sobre a produção do século XIX desta cidade  de Coimbra, norte Gaia, Caminha, Vilar de Mouros (?) se digne fazer um trabalho com grande amostragem, porque peças é coisa que tem aparecido em leilões, blogs e feiras. Uma facilidade que os antigos não tiveram, tendo outras, que deixaram desperdiçar, porque ninguém é perfeito.
Desconcertante o brilho que irradia, e o esmalte  igual, coisa do outro mundo numa parede com mais de cinquenta, é UNICO! 
Ainda perdida no deleite lembrei-me do belo esmalte branco de  Darque, e dos irmãos Rua quando deixaram o Minho e foram abrir uma olaria em Caminha . Será porventura este prato Darque, Caminha ou Coimbra (?). 

2 comentários:

  1. Querida Isa,

    Quem me dera ter formação e informação bastante nestas singelas louças para termos uma conversa. Que concordasse ou questionasse mas que te apresentasse umas idéias a altura de seu labor e sua paixão por elas.
    Então ficam só os elogios e os agradecimentos.

    O prato é belo mas como ganhou ares quando é comparado aos referidos pares daquela tão rica e bela parede do Museu...

    Por estes dias chegou um prato francês, sei que não gosta muito mas vou fazer um post pois é daqueles belos com passarinho fora da gaiola... "liberté".

    Um abração.

    ab

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  2. Caro Amarildo muito obrigada pela cortesia e pelo eloquente comentário. Interessante temática -,a loiça que nos leva a despertar tanta paixão , apesar do imenso oceano a separar-nos, ainda assim nada incomoda questionar, opinar, e trocar ideias.Por isso esteja à vontade, não se intimide. Revela um grau observador e inteligente que aprecio num homem, ao dizer que a loiça estrangeira não é a minha fascinação. Vou ver o post sim.
    Um abraço cheio de sol que hoje nasceu radiante.
    Isabel

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