Companhia das Indias


Porcelana MING
Julgo não ser uma peça fácil de comprar,talvez pelo indecifrável do desenho(?)...só um apreciador de porcelana oriental confere o devido valor à peça.
No caso apaixonei-me,tenho outro muito semelhante, embora mais pequeno.
Enriquecem o meu hall de entrada juntamente com uma série de pratos em porcelana azul dita Cantão possivelmente atribuídos ao reinado de Jiaquing 1796/1820, nos cantos em jeito de remate dois exemplares de cães de Fó, os maiores também comprados no mesmo vendedor ontem...hoje de manhã o meu marido ao sair mirava-os...saiu-lhe da boca " olá guardiões da casa"...gostei mais deste novo enfeite do que laços e anjos de Natal!
Porcelana Cantão Azul e Branca
O conjunto decorativo em porcelana da China torna o espaço da entrada belo, no entender cá de casa....
Festival de namoro de feira em feira há coisa de dois meses...não só eu como o colega do vendedor que habitualmente ao pé dele abanca e nele compra muitas peças para revenda,algumas vezes atrasada, a ele as compro com o preço inflacionado da recompra feita à segundos... no caso, gosto e muito, se compro bem...o que nem sempre acontece! Quis o destino que hoje lhe ganhasse a dianteira, porque o namorou novamente, confidenciou-me o vendedor.
O preço foi convidativo,leves esbeiçadelas no rebordo, trata-se de um vendedor que classificaria de primeira linha, a quem compro as melhores peças e mais em conta, ainda por cima um homem moreno,interessante e charmoso!
Trata-se de uma peça de porcelana fabricada na China
Dimensões (cm):altura: 2,9; diâmetro: 19,9
Na especialidade trata-se de um prato covo em porcelana de Foukien destinada à exportação de finais do séc. XVI aos inícios do séc. XVII, frequentemente chamada de porcelana de "Swatow", feita principalmente para o mercado asiático, era, no entanto conhecida na Europa desde os inícios do séc. XVIII. Se exceptuarmos alguns vasos, a maioria daquela produção compreende grandes pratos e taças de uma forma irregular e com uma pasta grosseira.
O desenho tem falta de finura, mas tem o mérito da espontaneidade.O traço é espesso, o azul ligeiramente acinzentado, mas deslavado.
Prato de forma circular, suportado por um pequeno frete, foi moldado numa porcelana espessa e grosseira.
A decoração tanto interior como exterior apresenta um desenho aparentemente não identificável em vários tons de azul sob um vidrado branco acinzentado e opaco, para mim um DRAGÃO,para o meu marido um ESCORPIÃO, identificável no prato mais pequeno, consegue distinguir a cabeça, e até virou os pratos de modo que a haste em arco virada por cima da cabeça lhe confere essa semelhança, ficam as dúvidas!
No centro do fundo encontra-se uma marca de letra chinesa não identificável.
Outro prato covo de menor dimensão com 15,5 CM
Textura igualmente grosseira embora mais leve o que denota tratar-se de uma peça de fabrico mais recente que o primeiro prato.
Tardoz dos dois pratos assinados
Datação (?)
No Palácio Nacional de Sintra existe um exemplar do mesmo tamanho do primeiro de tonalidade azul cobalto datado do século XVII d.C. - Dinastia Ming- reinado Wanli 1573 - 1620.
  • Independentemente da época de fabrico,seguramente são muito antigos,poderão ter sido fabricadas no reinado de Quialong 1736 - 1795 ou à posterior.
Curiosamente tenho-me dado conta que as peças mais antigas que tenho encontrado estão marcadas em detrimento de outro fabrico à posterior como o Cantão azul, Mandarim e...
Os dois exemplares é legado para deixar à minha filha que aprecia imenso esta porcelana. 
As feiras tem o condão,a magia da compra e da venda, de licitar, do leilão, da oportunidade,do azar,do buliço,do vaivém de gente, da conversa, da partilha e das estórias que se ouvem no entretanto do compasso de espera nos corredores atrofiados e entupidos de pessoas a ir e a vir...umas antigas peixeiras que entraram neste negócio há coisa de ano e meio, uma senhora pergunta o preço de um candeiro pequeno, uma das vendedoras pergunta à outra de "olhão, a mandante, a chefa", matreira, espertalhona com uma grande lata, vira-se para a cliente e diz "a esse posso fazer-lhe 100€"...reparei que nos últimos tempos deram para comprar ao alfarrabista que lhe fica de banca nas traseiras, catálogos de leilões,por comparação fazem preços, que das peças não sabem,em rigor nada de nada ( numa das feiras que vendi em frente delas vim embora mais cedo porque não suportava mais o alarido que faziam à volta dos clientes com os catálogos, com conversas, só mesmo quem é incrédulo e desconhecedor ali continua a parar...à 3º compra percebi como funcionava, infelizmente ou não, comprei-lhes um prato coberto inglês sem marca, vendido como sendo Sacavém com uma grande estória "que o tinha deixado de vender na feira da ladra porque o senhor ateimou no preço,ela foi mais teimosa do que ele e,"...enfeitiçada -, a peça era de facto bonita, última compra,na banca já nem paro, apenas cumprimento...o meu marido ainda me fez a observação " tem de pagar a carrinha nova"...nisto, uma vendedora madura de chapéu na cabeça,perna trocada, sentada no banco de jardim de encosto na banca, aspeto azeitado,possivelmente ainda não se tinha estreado demonstrou das coisas que vende pouco saber...interpelada por um freguês sobre o preço de uma travessa "cavalinho" num ápice se levantou e respondeu "é da coroa...o bom homem espantado disse-lhe" é de quê? " remata ela " é da coroa, da coroa..." na vez de dizer é uma peça de Sacavém do ano de...veja o carimbo no tardoz tem a coroa impressa na pasta que a identifica como sendo da Real Fábrica que na altura usava o símbolo da coroa...argumentos para motivar o comprador que gosta de saber, aprender...ainda estive de conversa com outro vendedor, o Rui que me confidenciou o negócio estar parado,há muita gente a saber muito de velharias, já não se vende como antigamente...aproveitei o ensejo e disse-lhe "todos aprendemos uns como os outros, quando uma peça não está marcada temos de analisar os pormenores e assim classifica-la o mais correto possível na origem"...espantado pergunta como faço isso...respondi...lembra-se há tempos de me ter vendido um prato motivo cantão popular como de Miragaia e que na altura eu disse-lhe que não seria...você vira-se para mim e responde "já me passaram pelas mãos dezenas deles, sei do que falo..."...calei-me...em casa analisei ao pormenor o prato, pelo desenho, muito identificável a palmeira incompleta, a cor do azul, o rebordo e ainda uma marca impressa na massa um "V" de Vandelli de Coimbra....ficou sem fala! 
  • Naquilo diz-me "aqui o da frente agora uma senhora perguntou-lhe se um prato era ratinho...ele disse-lhe que sim, sem saber se era...depois remata, sabe nesta arte não se pode ensinar tudo ao cliente...ao que respondi " a pessoa que fala é um analfabeto em faiança, não pesca nada de nada, o argumento, a estória para concretizar a venda é sempre o mesmo,não tem memória visual, e faz falta...só sabe pedir dinheiro, isso sabe e bem, por isso as peças na banca andam meses e meses, anos, nunca reparou?...ficou espantado com a minha observação!
Talvez pelo meu passado profissional faz sentido para mim que na arte de vender devem coexistir atributos,feeling para encantar o cliente, conhecimento e destreza para concretizar com arte o negócio a contento de ambas as partes e até para o fidelizar e voltar.
  • Em remate o vendedor dos cães de Fó e do prato é um homem de cariz sério, atencioso, na banca tem vários preços para todas as carteiras, nos que o não são faz sempre desconto, remata o negócio com um sorriso doce, um dos meus favoritos e habitués!

Comentários

  1. Olá Maria Isabel
    Ontem, por duas vezes perdi o comentário que fazia a este seu post ! 
    Dizia-lhe, que temos andado desaparecidas, especialmente eu, que lhe fiquei a dever resposta a um comentário seu pelo que desde já me penitencio 
    Gosto muito destas suas taças orientais, que fogem à regra do que habitualmente nos mostra. Nas férias de verão estive vai, não vai, para comprar uma taça semelhante à primeira que mostra, mas acabei por não efetuar o negócio, pois, para além de achar o preço excessivo (120€), não conheço bem os carateres chineses, e não quis correr o risco de comprar gato por lebre
    Um bom fim de semana.
    Maria Paula

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  2. Olá Maria Paula.
    Estive ausente uns dias.Obrigada pelo seu comentário.
    Ao mencionar o valor que pago nas aquisições é precisamente para ajudar outros nas suas.Só compro barato...nunca dei mais de 8o€ por uma peça, foi caso único,fui enganada, estava restaurada, uma grande travessa Chorão de Sacavém e depois roubada de casa...
    Compro partidos, colados, o brilho é o mesmo, encantam-me, veja os de cantão...são bonitos ou não são e foram todos baratinhos...muita sorte em vê-los...
    Beijos
    Isabel

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  3. Atenção! andam muitas falsificações boas de porcelana que imitam antiga.Estão a chegar contentores cheios de falsificações de porcelana chinesa antiga à Europa todos os dias. Muito cuidado. E esses 2 pratos "fundos" penso que são Japoneses.
    Cumps

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Seja bem vindo ao meu blog. Muito obrigado pela cortesia e pela informação.
    Acredito que estes pratos são verdadeiros - agora a ser japoneses?...não me inclino tenho umas tacinhas com a marca igual.
    Afianço a sua antiguidade atestada pelo frete, pela pintura e pela textura da massa.
    Em matéria de reproduções tiram-se d'olho, mesmo as bem feitas...são peças mais grosseiras...
    Foram comprados a um colega que só compra recheios de boas casas. Ando em feiras há 30 anos e iguais só vi mais um o que atesta a possibilidade de serem verdadeiros. Aliás a China exportou a porcelana fabricada nos barcos da Companhia das Índias para a Europa, ficando sem nada.
    Sente-se nas feiras que querem comprar para a para levar de volta à sua terra.
    Melhores cumprimentos
    Isa

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  6. M Isa
    Eu vivo na Ásia e por isso mesmo aprecio mais esses pratinhos Ming do que peças Companhia da India. Se algum dia considerar trocar tenho peças Companhia da Indias por exemplo travessa de porcelana azul e branca de Cantão que poderemos trocar. Os caracteres na face posterior não teem qualquer significado em chinês, são "assinaturas" do oleiro, com as quais identificava as suas peças
    Francisco M.

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  7. M Isa
    Eu vivo na Ásia e por isso mesmo aprecio mais esses pratinhos Ming do que Companhia da Indias. Se algum dia considerar trocar tenho peças Companhia da Indias como por exemplo travessa de porcelana azul e branca de Cantão que poderemos trocar. Os caracteres na face posterior não teem qualquer significado em chinês, são "assinaturas" do oleiro, com as quais identificava as suas peças
    Francisco M.

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  8. Seja bem vindo ao meu blog Francisco M.
    Estive ausente por isso demorei a responder.
    Interessante apreciar estes pratos Ming que em geral não são apreciados como a louça azul e branca Cantão.
    Eu sabia que os carateres são a marca do oleiro, porque há anos comprei umas tacinhas de chá lindísissimas com uma letra no fundo, nessa altura foi-me dada essa informação - fiz um post sobre elas neste blog, se tiver interesse tente descobrir, caso não consiga diga que deixo o endereço.

    Lamento dizer que no caso gosto em particular destes dois pratos da minha coleção. Mas estarei atenta nas feiras - são raríssimos. Se aparecerem a bom preço compro e quem sabe noutra ocasião podemos trocar.
    Mantenha-se atento...ao meu blog, tem o email no caso de preferir.
    Está perfeitamente à vontade para dialogar e fazer propostas como a que aqui fez num gesto correto e frontal, como aprecio.

    Que tudo lhe sorria por aí na Ásia tão grande onde será que está...espero que não seja na Coreia...
    Cumprimentos
    MIsa

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  9. Fui hoje a Algés na busca de uma tacinha chocolate da companhia das índias e acabei por comprar uma série de coisas sem ter encontrado aquilo que efetivamente queria. Nesta minha demanda tive o prazer de conhecer pessoalmente a autora deste excelente Blog cujo titulo é de facto curioso e oportuno e que nas lérias se aprende e partilha conhecimentos e experiencias que de algum modo nos faz querer comprar e por vezes vender para voltar a comprar sem que disto se viva mas como um complemento e um passatempo que não é mais do que colecionar história e histórias. A Maria Isabel é uma pessoa com uma larga experiência no que se refere às faianças e tenta saber o máximo possível e ao partilhar aqui no seu blog os seus achados é sem sombra de duvida alguém que em muito tem contribuído para um estudo mais profundo da faiança portuguesa.
    Eu como disse gosto muito das peças que encontro mas por vezes conhecer as pessoas e as suas histórias são experiencias deveras gratificantes. Parabéns e obrigado por tudo o que tem tentado partilhar.
    Eduardo

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  10. Caro Eduardo muito obrigada pela cortesia da visita e dos ternos elogios que me deixaram deveras sensibilizada com as suas eloquentes palavras, de todo imerecidas, apenas me sinto aspirante e entusista neste mundo do conhecimento e aprendizado da faiança.
    Contudo sou teimosa, gosto de aprender e de partilhar o que sei, sem jamais ficar com trunfos na manga.
    As feiras, e este blog, tem-me dado alegrias entusiatas pelas pessoas anónimas que chegam até mim e se tornam no tempo amigas e cúmplices neste gosto simples, alegre com estórias e muita história.
    Mas foi o Eduardo que ontem me surpreendeu pela positiva e deixou deslaçada nas palavras com a oferta de um pratinho em motivo cantão popular pintado a duas cores:ocre e preto , raro, por ser habitual apenas o azul. Deixou-me sensibilizada porque parece se está a tornar um hábito, do mesmo jeito o conhecimento em Alcochete, a Cíntia me reconheceu pelo blog, foi a casa e me ofertou uma travessa que fora da avó...
    Além do Eduardo conheci mais pessoas interessantes neste mesmo gosto e paixão, um casal em que a Dulcineia a namorada é surpreendida pelo namorado com a aquisição de um belo prato de grandes dimensões em azul de faiança Coimbrã que ao passar na minha voltinho a namorar as bancas dos colegas vi se a rematado ao meu amigo Luís Sobral...Ora não escrevo mais porque isto fará parte da crónica que farei sobre a feira no outro blog.
    Bem haja Eduardo pelo tempo, pela conversa, pelo carinho e sobretudo pelo gesto amigo e fraterno que senti ser homem de bem, simples, como se a nossa amizade fosse de sempre. Obrigada pelo deferimento com que me distingiu. Alguma dúvida ou apenas conversa, use o email se quiser.
    Desejo-lhe uma boa semana.
    Um abraço
    Isabel

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