quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Faianças kitsch da minha coleção

Citando o site http://www.inverso.pt/barcelos/outros/textos/kitsch.htm de João Manuel Mimoso

"Em muitas regiões do País nasceram e desenvolveram-se indústrias cerâmicas, artesanais ou verdadeiramente fabris, associadas à existência de matérias-primas locais. Num pequeno grupo de aldeias que ladeiam a estrada de Barcelos para o Prado, no entanto, desenvolveu-se e floresceu uma entidade industrial muito curiosa, espécie de cluster (mas muito diferente dos que divulgou  (Michael Portel) que lembra as antigas concentrações de indústrias relojoeiras da Floresta Negra ou do Vale de Joux onde, a par de trabalho de índole agrícola, os habitantes locais se dedicavam em part-time ao fabrico de fornituras de relojoaria, mostradores, caixas, etc, ou à montagem de relógios para comercialização por vendedores-viajantes. Interessar-me-á em particular a produção de figurado em moldes ("bonecos" de Barcelos) e as particularidades que mais me atraem neste fascinante "cluster à portuguesa" são a capacidade de adaptação às solicitações do Mercado, associada à criatividade (artística e tecnológica- esta última mais propriamente resignável por "desenrascanço") e, muitas vezes, a tocante candura dos produtos. Uma peculiaridade deste "cluster" centrado em Santa Maria de Galegos (a cerca de 5km de Barcelos) consiste na fluidez da interacção entre as várias unidades produtivas, plagiando-se mutuamente, comprando-se mutuamente produtos já acabados para comercialização, ou abastecendo-se entre vizinhos de peças apenas cozidas para pintar e vender posteriormente. Estas unidades vão desde pequenos agregados familiares cuja tecnologia se limitava à possibilidade de pintar figuras já cozidas, até verdadeiras fábricas com instalações próprias e capacidade de originar peças de notável complexidade.
Desde a década de 1960 que o figurado de Barcelos tem recebido a atenção dos apreciadores da Arte dita "Popular" mas que, a partir do momento em que é descoberta e passa a ser feita para diletantes ou para marchands, deixa verdadeiramente de o ser e passa a emparceirar com a produção dos artistas "encartados". A bonecada feita em molde (figuras de presépio, galos de Barcelos, etc, por vezes chamada "figurado sortido") também não é Arte Popular e costuma ser desconsiderada pelos mesmos autores que justificadamente glorificam as peças únicas (obras de artista).  
Quem vos escreve estas linhas tem estudos em engenharia mecânica e em gestão empresarial e industrial e, portanto, algum entendimento dos mecanismos do Mercado e do processo industrial. 
Há três grupos de peças de fabricação local em molde que me interessam particularmente: 
  • Figuras de presépio
  • Galos de Barcelos
  • Cerâmicas kitsch (pinguins com cartola, cães com laivos verdes e vermelhos com uma bola de futebol debaixo da pata, ou a pisar um gato, o meu, etc). 
"Nestas peças vejo uma arte que talvez só apele aos engenheiros: a arte de desenvolver um produto para satisfazer um mercado e montar uma cadeia de fabricação e comercialização para o fazer de maneira lucrativa, resolvendo problemas tecnológicos e manageriais de certa monta relativa e adaptando-se permanentemente à procura. Se pensarmos que muitas das pessoas envolvidas nas cadeias decisórias eram iletradas, começa a configurar-se algo de excepcional. E, uma nota: quem fabrica pinguins de cartola não tem mau-gosto! O fabricante escolheu um mercado-alvo e tenta satisfazê-lo: faz o que se vende (neste caso, nas feiras). Quanto aos compradores... bem, se algum dos leitores tiver um pinguim desses na secretária, não quero que se sinta insultado!

O adjetivo "kitsch" é um neologismo derivado do verbo alemão (etwas) verkitschen que significa fazer uma má cópia (de algo), começou a ser utilizada no século XIX para classificar estampas e pinturas sem gosto, que imitavam estilos cultos e se destinavam aos consumidores pouco judiciosos."
Aplicado a faianças o termo "kitsch" pode ter dois significados afins em português:

1) referir-se a peças que são cópias baratas de peças de estilo

2) referir-se a peças pura e simplesmente de mau gosto

"É neste segundo sentido, mais corrente, que utilizarei o termo em relação a uma classe de faianças que considero particularmente fascinantes e cuja preservação espero ajudar ao escrever este artigo. Restringir-me-ei arbitrariamente às faianças fabricadas na região de Barcelos, onde, creio, o estilo terá conhecido as mais notáveis criações.
As faianças kitsch de Barcelos (no segundo sentido- peças de gosto duvidoso) distinguem-se por algumas ou todas as características seguintes
i) pela cópia (frequentemente resultam do abastardamento de peças de outros fabricantes em geral já de gosto duvidoso- a Estatuária Artística de Coimbra, por exemplo, de que foram copiados os jogadores de futebol, os elefantes atacados por tigres, etc)
ii) pelos temas absurdos (um cão com uma bola de futebol, um pinguim de cartola...)
iii) pelo colorido anómalo (cães com pelo verde ou tigres encarnados); e iv) pelo impacto visual (os melhores exemplos do kitsch de Barcelos são peças decorativas tais como centros de mesa que pelo tema, tamanho e cores atraem imediatamente a atenção de quem entre no compartimento onde se encontrem)."

"As peças kitsch de Barcelos, hoje em vias de total extinção, constituíam um subconjunto do figurado de molde fabricado na região e eram primariamente comercializadas em feiras, um pouco por todo o País.Antes de começar quero deixar uma nota a quem tenha a pachorra de me ler: este estudo é despretencioso mas é um estudo!
Não estou de maneira alguma a troçar das peças que ilustrarei e muito menos dos seus fabricantes. Nem me envergonho de confessar que admiro os criadores a quem se devem peças tão originais e de cunho tão marcado. Os fabricantes faziam-nas para um mercado que era substancial - o gosto kitsch era de quem as comprava e não necessariamente de quem as produzia para satisfazer a procura! Este texto está orientado, ainda que superficialmente, para a teoria do design, mas chamo a atenção dos sociólogos e afins para o interesse do estudo dos grupos humanos que constituíam a procura das faianças kitsch e, em particular, da sua evolução no tempo."

O meu cão a pisar um gato
Eufórico de boca aberta pintado em cores fortes; vermelho, amarelo, castanhoe preto, sob rodapé em pinceladas em verde 
 O meu Pinguim de cartola
Uma das figuras fabricadas em mais versões com  30cm. a bengala em latão foi o meu marido que a fez.
Bem me lembro de ver os pinguins em cima dos frigoríficos. Em casa dos meus pais o frigorífico era tão alto que nada tinha em cima...

Fundo dá evidências de ter sido fabricado na Estatuária Artística de Coimbra, gravado na massa com um "F"(?)
 Frades
Conjunto de pimenteiro e saleiro no formato de frades obesos, carecas, com sorriso ingénuo de "santos"
 
  Galo de Barcelos
"Os galos de Barcelos têm índices K demasiado baixos para interessar aos verdadeiros apreciadores (com algumas excepções meritórias, tais como os galos com botas e os vestidos com as cores de clubes de futebol)." No entanto o sucesso do Galo levou vários fabricantes a produzir versões "melhoradas", garridamente coloridas, de que esta é uma versão mais habitual.

 Galo de Rui Miragaia
Em papel e jornal na Praça do Mem Martins

Galo de Joana de Vasconcelos
Atualmente na Ribeira das Naus em Lisboa, vai correr Mundo a partir de dezembro para para o início do ano do Galo na China
Galo alternativo
O meu galo que tenho na minha cozinha é bem diferente do tradicional de Barcelos de bela crista que parece verdadeira e peito de ataque!
Pelo que fico em dúvida onde tenha sido o seu fabrico se Barcelos ou Coimbra (?).
 
Sanita a imitar amostras de Sacavém
 Transformada em cinzeiro, poderá ser ou não considerada souvenir kitsch
 Cães de Foo
Contraste dos verdadeiros  Cães de Foo e a imitação de cães de fóo de Barcelos, representam, a figura feita pelo processo da barbotina ( a barbotina ou porcelana líquida é uma mistura de pó de argila diluída em água, usada em âmbitos de modelagem de cerâmica e barro). Na região de Barcelos circa no início de 1960(?) enquanto os exemplares produzidos na China nos finais do século XIX e inicio de XX. A peça de Barcelos provavelmente moldada a partir da peça chinesa tem algum mérito decorativo que é prejudicado pela tentativa de imitação da porcelana, cujas peças se caracterizavam pela qualidade dos materiais e dos acabamentos, e a notoriedade nos olhos que não tem expressão.E claro tem a etiqueta.
 
Selo de papel da  Cerâmica Infante D.Henrique, Lda Barcelos - Portugal com o preço em escudos
Estudantes e a Tricana de Coimbra
Várias peças inspiradas nas representações de estudantes e tricanas produzidas pelas cerâmicas coimbrãs. Pequenas peças vendidas como  "souvenir" de estudantes a tocar guitarra sozinhos ou na companhia de tricana na fonte do Jardim da Sereia, Vale sobretudo pela rusticidade e pelo azul eléctrico.
Os meus exemplares de vários tamanhos
O meu presépio
Figuras em barro pintadas que se compravam na feira de agosto em Ansião. Persistiram no tempo com outras que foram do meu marido.

Em remate
"Ver aguça o desejo de possuir...
Espero que este pequeno artigo incentive o coleccionismo e a conservação do kitsch português nas suas várias formas, para que peças de cunho tão marcadamente nacional possam ser preservadas para a posteridade." O que corroboro na integra!

FONTES
http://www.inverso.pt/barcelos/outros/textos/kitsch.htm

sábado, 5 de novembro de 2016

Prato com ave e palmitos do norte, Darque ou SAVP (?)

Mal os meus olhos bateram neste prato o quis logo trazer comigo, o pior foi mesmo engolir em seco o preço tabelado...Deixei-me muda a ouvir as lérias do costume do vendedor, homem carismático, de estatura baixa, seco de carnes, sisudo, de amargo feitio, o melhor é ficar calada a ouvir e ter calma..." já cá esteve um colega meu que me ofereceu X... é do século XVIII... se não tivesse as "duas dentadas" na aba quando lhe tiraram o arame e,...Perdi a cabeça por ser extremamente decorativo, mais um para a minha coleção...
Prato de grande dimensão, 33 cm de diâmetro. Pesado. Textura de barro com mistura (branco com vermelho) compata quase homogénea ,apresenta ligeiros "buraquinhos na massa", com ligeiro côncavo que se centra ao meio e se reflete no tardoz onde assenta por ser mais fundo se apresenta "roçado" de tanta utilização.
Peça interessante pela decoração estampada que preenche praticamente todo o prato. Ao centro apresenta uma composição floral em policromia com motivos vegetalistas, ramagens de vários tamanhos intervaladas com três grandes flores, poisada na do centro uma ave  em ocre com as asas em amarelo mais claro serpenteadas de palmitos em castanho forte a rondar o preto e manganês, sendo encimada por outras ramagens menores em policromia. No limite do covo um filete em grega ou ziguezague em ocre seguido de largo esponjado em manganês, até ao limite da aba, que se apresenta decorada em reservas a amarelo com vários tipos de palmitos em policromia. Vidrado estanífero brilhante com craquelê .
Apesar do meu livro da Louça de Viana não ter nenhum exemplar semelhante com a ave...
O prato apresenta-se sem marca, não havendo dúvida na sua atribuição ao fabrico norte. 
Provável  Afurada, da penúltima fase Darque(?), SAVP (?) ou Fervença (?) de meados de 1800(?).
O copianço dos motivos é flagrante em fábricas relativamente perto como no norte havia muitas sediadas em Gaia. Seja a estampa com flores de três bicos, o craquelê, o esmalte branco translúcido, o esponjado e a pincelada gorda do manganês escuro a rondar o preto que me interrogo se não é SAVP?
Comparação com peça de coleção do Museu Alberto Sampaio atribuída a Darque(?)
A única que encontrei com o motivo de grega ou ziguezague
Comparação da ave, palmitos  e lágrimas na folhas a outra cor com a peça do 3º período de laboração da Fábrica de Darque do acervo da Câmara de Viana do Castelo.
Livro Meninos Gordos Isabel Maria Fernandes 
Palmitos
O tardoz com arrepiados no esmalte evidencia fabrico de Darque(?)
Ao meio a evidência referida anteriormente do ligeiro côncavo ao centro
A cor do barro de ligeiro rosado e os arrepiados no esmalte pelas matérias plásticas
 Outro grande prato da minha coleção, fabrico norte, atribuído a Darque(?)
Como não há dois sem três, outro prato da minha coleção de tamanho pequeno e muito leve, julgo que esta decoração não sejam  palmitos (?) em policromia por serem diferentes dos habituais parecem tochas(?) e as pinceladas em manganê, são muito abertas e desmaiadas, bem diferentes das outras ou de pincelada finas ou gordas...Produção norte, pela excelsa qualidade de fabrico pode ser Darque, SAVP ou Fervença(?).

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Azulejo da Fábrica AA Costa das Devesas


Azulejo assinado na pasta -
AACOSTA & C DA F.DAS DEVEZAS 
Tardoz do azulejo marcado na pasta
Réplica de um motivo do século XVI, que por acaso tenho um mutilado,reproduzida pela Fábrica das Devezas em Gaia .
Poderá ser de finais de 1800(?). Num catálogo de 1910 aparecem inúmeras peças entre as quais azulejos.
Citando http://www.queirozportela.com/devesas.htm
"Para que todo este esquema funcionasse, António Almeida da Costa implementou um eficaz sistema de escoamento dos produtos, através da instalação da Fábrica das Devesas e de uma sucursal na Pampilhosa do Botão, junto a importantes estações de caminho de ferro. A obtenção de matérias primas baseou-se, em muito, no transporte ferroviário, já que a sucursal na Pampilhosa pretendia ser também um local de recolha de barro, que era facilmente transportado para as Devesas. António Almeida da Costa implementou ainda uma vasta rede de depósitos pelo país, estendendo a sua teia ao Rio de Janeiro e colocando à frente destes depósitos pessoas da sua confiança, como no caso do depósito em Lisboa, entregue ao filho do mestre cerâmico João José da Fonseca – o escultor João Carlos da Fonseca.
A qualidade do equipamento industrial da Fábrica das Devesas era igualmente digna de nota, havendo mesmo algumas máquinas inventadas pelos mestres fabris. Os próprios edifícios fabris não eram excessivamente acanhados, ao contrário do que sucedia com quase todas as indústrias da época.
A preservação destas estruturas fabris é extremamente importante para o estudo e compreensão da indústria cerâmica e de fundição em Portugal: uma parte importante da própria História da Arquitectura e da Escultura Portuguesa do século XIX e do início do século XX está nas Devesas."

A maioria dos silhares azulejares do Palacete na Comenda na Arrábida foram produzidos por esta fábrica em 1909
 Painel no tardoz a norte, dedicado a Nossa Senhora da Ajuda com a data de 1908 assinado PINT pint (Muitos dos painéis azulejares são da autoria deste ceramista , José António Jorge Pinto)só possível verificar por estar no local  um fotografo armado de objetiva potente a quem o meu marido pediu...

 
 
 Painéis roubados



FONTES
http://www.queirozportela.com/devesas.htm

Falar das Coisas que eu Gosto- História, Ansião e Faiança!

Foi o  Programa Visita Guiada ao Forte de S João Baptista na Foz do Douro no Porto  que vim a correlacionar o motivo vastamente pintado no ...