segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Forno de cerâmica datado entre 1450 e 1530 da Mata da Machada

Tomei conhecimento do campo arqueológico da Mata da Machada e dos seus fornos cerâmicos no curso de faiança do século XV a XVIII decorrido no centro de arqueologia em Almada. Esta olaria da Mata da Machada permitiu elaborar as tipologias que faltavam até à segunda metade do século XVI , quando são introduzidas no mundo urbano as modas italianizares e quase em simultâneo as cópias das porcelanas orientais" . 
Tanta vez em rota de passeio o caminho ao longo do esteiro do rio de Coina a caminho da Moita, com a placa sinalética à direita em frente da Base dos Fusileiros, mas sem nunca ainda ter parado para o descobrir, mais para a primavera.
Em 1980 uma descoberta fortuita alertou para a existência de vestígios que indiciavam um centro produtor oleiro . Em 1981 realizou-se a primeira escavação arqueológica dirigida por Cláudio Torres que, numa área com cerca de 1000 m2 pôs a descoberto um forno cerâmico dos séculos. XV/XVI. 
Este local foi escolha por beneficiar de recursos naturais, como a argila e lenha e, ainda, da proximidade com o rio Coina, que permitiam um escoamento rápido das produções oleiras.
 
A localização da olaria da Mata da Machada na freguesia de Palhais no concelho do Barreiro explica-se pela grande abundância de lenha, combustível necessário ao aquecimento dos fornos e pela existência de matéria-prima no local: a argila. Situada numa imensa mata de pinhal, de jurisdição real desde o século XIV- certamente para o fornecimento de madeira e resina para a construção naval e para as casas dos seus habitantes, então na época o único material combustível ( sendo que o gasto era tanto que escasseava em Lisboa e com isso o povo se revolta, tendo o rei mandado encerrar a fábrica de vidro de Coina sendo transferida para a Marinha Grande, onde havia o pinhal de Leiria e areia, essencial para o seu fabrico) a lenha servia também para alimentar com lenha e carvão a fábrica de biscoito de Vale de Zebro e ainda as minas de azogue - o complexo oleiro da Mata da Machada, com a sua fonte de água doce a escassos metros e um embarcadouro, reunia as condições que o tornaram durante muito tempo um importante fornecedor de Lisboa.
Na olaria da Mata da Machada se produziam utensílios. O espólio cerâmico proveniente da escavação desta olaria divide-se em duas grandes tipologias: louça de uso caseiro e peças de uso industrial, cerâmica vidrada e por vidrar: 
Na primeira categoria integram-se as panelas, candeias, malgas, tigelas, escudelas, copos, pratos, caçoilas e peças de armazenamento de maiores dimensões como cântaros, alguidares, talhas e potes a par de pesos de rede, telhas e tijolos para a construção.
Citando o autor da brochura Cláudio Torres - "O barril, cuja forma até então é desconhecida, teria como função o armazenamento de água fresca durante as longas viagens marítimas."
Barril e placa ou forma de biscoito - placas de variados tamanhos ,cuja utilização deve estar relacionada com uma tradição ainda hoje viva nos Açores ( o bolo de pedra, o bolo de tijolo ou o bolo do Pico, em que a massa de pão é espalmada e cozida sobre uma placa de cerâmica assente num fogareiro. Seria, talvez, uma das maneiras de fazer pão durante as longas travessias marítimas, e que perdura na tradição insular "
O bolo do caco na Madeira
O bolo do caco é um pão de trigo típico da Madeira e Porto Santo. De origem árabe, este pão, elaborado à base de farinha de trigo, é achatado e de bordas arredondadas.O seu nome deve-se à forma como, até há bem pouco tempo, era cozido: numa pedra de basalto, denominada “caco”, sobre brasas escaldantes. 
Hoje em dia, utiliza-se a chapa de ferro aquecida por gás industrial, em detrimento do caco de pedra.No passado, muitas vezes este pão era feito somente para aproveitar o resto de uma amassadura de pão de casa. 
Nesta olaria foi descoberta ainda uma tipologia cerâmica, identificada na época como “forma de biscoito”, a qual serviria para fabrico deste produto nos fornos de Vale de Zebro, para serem levadas nas caravelas para a descoberta de novos mundos.
"A panela o recipiente com uma longa história na cozinha ibérica e cuja evolução formal continua nesta época, de linha iniciada em finais do século XII."
A malga é um novo modelo originário da Andaluzia que se generaliza entre nós a partir de finais do século XIV, com este nome,certamente herdado da cidade de Málaga." A tigela diminui de tamanho adaptando-se a uma nova função individual na mesa do respasto, perdendo a grande dimensão, de onde todos comiam
( sendo que no século XX ainda no nosso país, nas beiras em ambiente rural os filhos picavam todos da mesma bacia ou palangana). Aparece a escudela de orelhas, o prato e o copo."
Pequenas taças ou copos azados e na direita malgas
Tigelas e na direita copos

As candeias de azeite
Forno

"Forno cerâmico fabril, construído segundo o processo de construção da alvenaria com ligação de argamassa, com interiores abobadados e bocas em arcos quebrado, apresenta uma cronologia entre 1450 e 1530. Faz parte de uma olaria da qual apenas foi escavado um forno na década de 80.
A "zacara da terra dos sarracenos" França do sul, século IV
"O espólio cerâmico proveniente da escavação desta olaria divide-se em duas grandes tipologias: louça de uso caseiro e peças de uso industrial.
Na primeira categoria integram-se as panelas, candeias, malgas, tigelas, escudelas, copos, pratos, caçoilas e peças de armazenamento de maiores dimensões como cântaros, alguidares, talhas e potes. Também se fabricavam telhas e tijolos para a construção.
A segunda categoria de peças é maioritariamente composta por um tipo de artefacto industrial: as Formas de Purga do Açúcar, ou “Pão de Açúcar”."

 Julgo que no Museu de Alcácer do Sal existe um exemplar de forma pão de açúcar(?)
"A segunda categoria de peças é maioritariamente composta por um tipo de artefacto industrial: as Formas de Purga do Açúcar, ou “Pão de Açúcar”, a peça mais fabricada neste forno e destinada à exportação para os engenhos açucareiros insulares.
Do lado cristão, a primeira referência surge em 1366, em que um pão de açúcar é inventariado entre os bens da Ordem de Avis- o que mostra bem a sua raridade(Dias Arnaut).
Formas de açúcar semelhantes às da Mata da Machada foram assinaladas em Barcelona reempregues no enchimento das abóbadas da Santa Maria Del Mar e fabricadas, pelo menos, em meados do século XIV em Oliva junto a Valência.A partir de 1466, o infante D. Fernando dá um impulso decisivo à indústria açucareira da Madeira.Em 1501 sabe-se da existência de umas formas grandes consideradas prejudiciais à purgação pelo que o rei recomenda que sejam todas iguais e que para tal fosse fornecida uma bitola aos oleiros do reino, de modo a que 6 pães de açúcar pesem uma arroba.
A toponímia é marcada perto da Moita com o nome Pinhal das Formas.

"Em estudos recentes admite-se ter funções completamente distintas destas. As peças consistem em placas de barro de forma circular, com dimensões diversas. Tais artefactos constituiriam utensílios de olaria denominados “Pratos de Torno”, sobre os quais o oleiro fazia as peças e transportava-as para o local de seca, antes de entrarem no forno e serem cozidas. Esta é ainda actualmente, decorridos que são mais de vinte anos sobre a realização da primeira campanha arqueológica, uma das poucas olarias conhecidas dos séculos XV e XVI, o que atesta a sua importância no contexto nacional.
Recentemente foi posto em evidência um local que pode levar à descoberta de um novo forno de arquitectura industrial, manuelina." Supostamente construído após o terramoto de 1755 que destruiu Coina e os fornos do biscoito de Vale Zebro, que teriam sido reconstruídos com arquitetura manuelina, e aqui na mesma (?).

Fontes
http://www.cmbarreiro.pt/
http://memoriaefuturo.cm-barreiro.pt/
http://www.monumentos.pt/
https://www.geocaching.com
Brochura editada pela câmara do Barreiro
http://nomundodasescolhas.com/

domingo, 13 de dezembro de 2015

Réplica no artesanato alentejano de um pré ratinho Brioso e aranhões

Ontem na feira de velharias do Montijo, encantei-me com um prato de artesanato em cerâmica do Redondo, Alentejo, por se mostrar numa decoração rara, habitualmente privilegiam a pintura de paisagens alentejanas com as searas, sobreiros e azinheiras, casario baixo com grandes chaminés, e variedade de flores. Encantei-me pela pintura azul, pelo rosto feminino central que logo me reportou para os" pré ratinho do Brioso "em Coimbra...Faiança belíssima e caríssima, no mesmo modo para os ditos aranhões-, afinal decorações do século XVII. Dificilmente adquiro uma peça em artesanato de olaria, comprei há mais de 30 anos em Santarém, no primeiro festival gastronómico, a um oleiro algarvio dois belos pratos, um que ainda tenho com a típica casa alentejana,o seu forno e a piteira pela frente( porque me faz lembrar do episódio no 5º ano, que ninguém da turma sabia o significado de piteira empoeirada na beira da estrada -, e claro a professora mandou que todos escrevessem 50 vezes o que dizia no dicionário ...planta da família das amarilidáceas, de folhas espessas, carnudas, fibrosas e espinhosas, subespontânea em Portugal que se vêem nas ribanceiras das estradas ...Comprei ainda outro prato com uma aldeia e igreja que ofereci à minha irmã.
Este porém ficou preso ao meu olhar por esta reprodução ser rara .
Pintura monocromática a azul sobre creme fosco, visível os contornos da pintura que o pintor incutiu ao desenho e se destacam no prato, sendo que a aba se  apresenta decorada com os caraterísticos ditos aranhões, intervalado por ramo de flores. Ao centro o rosto em grande plano de uma mulher, sendo que o pintor/oleiro quis deixar a sua marca (?) ao ornar ao limite da testa, flores e abaixo, algo que não consigo decifrar, mas parece a pressão do dedo polegar com o indicador segurando duas alianças(?) seria para um pedido de casamento? O tocado do cabelo o ornou com um animal/inseto, centopeia (?) e ao limite do colo com uma ramagem e do covo com um filete fino.
A bela faiança  de Coimbra, o mote inspirador do artista, supostamente algum prato viu quando os "ratinhos" os levavam nas arcas para as ceifas, e os deixavam a troco de roupa usada, por haver pouca loiça no Alentejo,porque a compravam baratíssima nas feiras das suas terras.
Um exemplar verdadeiro
Tardoz revela ser antigo feito na roda do oleiro e cortado com arame, dito por um freguês que foi oleiro e tentava vender uma cabaça ao vendedor...
 Assinado Redondo Portugal e as letras do pintor, faltou-lhe o ano!
Diz-me o meu marido, a nossa prenda de Natal -, vamos pô-lo ao meio da chaminé da casa de...está pesada só com cantão popular, vai ficar giro centrado ao meio, quando se olha lembra logo o Brioso...
Pois lembra!

domingo, 15 de novembro de 2015

Prato de faiança com paisagem campestre em azul fabrico de Coimbra(?)

Encontrei este prato de faiança na feira de velharias de Figueiró dos Vinhos na Páscoa. A vendedora disse-me que já tinha vendido os melhores só restava este, frágil, cheio de mazelas, gostei da história que era dum tio padre para os lados de Coimbra.
Gostei também da pintura tipo Naif a lembrar as que eu fazia na primária;árvores, moinho, rio, serras e passarinhos.
Pintura monocromática em azul que preenche todo o centro com árvores do lado esquerdo, à direita um moinho de vela erguida altaneiro na serra, pelo meio um rio com um barco e no céu passarinhos. O limite do covo com um filete fino em azul e outro ao meio da aba mais largo.
 Tardoz apresenta-se de esmalte amarelado
Restaurei-o, ficou muito bem disfarçado.
Vendi-o à minha amiga Anabela do Torrão.
Fabrico de Coimbra (?) atendendo às árvores e ao esponjado do arvoredo, inicio século XX (?).

Bacia em faiança com flores atribuída a Coimbra(?)

Pequena bacia ou taça  em faiança, comprada na feira de velharias de Figueiró dos Vinhos pela Páscoa a uma vendedora da Sertã.
Peça utilitária que faz parte do meu imaginário de criança, de as ver nas casas de avós e tios
Esta cativou-me pela decoração, que nunca vi nada igual, sobretudo a decoração central com um ramo de petúnias(?)  em policromia azul, vermelho e branco, ramagens em castanho, e folhas em verde esbatido, ao limite do covo uma dupla de filetes finos em amarelo ocre. Na aba ramagens de flores em castanho e sobre elas sobreposto um filete largo em amarelo ocre. Ao limite do rebordo  quebrado um filete em azul.

Apresenta "um cabelo".
Esmalte amarelado uma tendência carateristica de uma determinada época em Coimbra.
Tardoz; corte do pé da bacia com cana (?).
Aba do rebordo direita.

 Fabrico atribuído a Coimbra(?) finais do século XIX início de XX(?)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Pequeno prato de faiança com marca "1" fabrico de Coimbra (?)

Encontrei um pequeno prato de faiança, com um "cabelo" de apenas 15 cm de diâmetro, na banca da Jú e da Anabela, na feira da ladra.
De pintura singela, além da pequenez que me atrai, foi outro o fator que fez que o trouxesse comigo. Descubram mais à frente.
Apresenta-se decorado ao centro com estampagem de um pequeno ramo floral  em policromia;verde e ocre
A aba também com estampagem de flores simples em azul cobalto
Dá para ver e bem, que o esmalte "agarrou" mal à massa , por esta ser de fraca qualidade na mistura de muitos materiais plásticos, por isso a má aderência do vidrado que se mostra e muito com " arrepiados e buraquinhos", seja pela frente, mas sobretudo no tardoz.
No tardoz ao centro marcado na massa com o algarismo nº 1.
Foi este o motivo principal da compra. 
A primeira vez que encontrei um prato minúsculo, marcado na massa com o algarismo "1", da Fábrica Viúva Lamego. O segundo foi este -, antes só vira em terrinas ou sopeiras, que tenho exemplares marcados com os nºs 1 - 3- 5 ( julgo que ao número poderia corresponder o tamanho ou formato(?), agora com o prato fiquei com mais certeza que estou no caminho certo(?).
Minha última aquisição, terrina marcada na pasta com o nº 5 e com o nome do artista José Cardoso (?) e local de fabrico- Coimbra
No caso do prato o nº 1 impresso seria referente ao prato que se chama de sobremesa (?)
Com muita certeza o seu fabrico é de Coimbra(?) dos meados do século XX.Embora as flores em azul da aba nos catapultem para o norte em Gaia onde foram pintadas por várias fábricas e o mesmo do ramo central.
Distingue-se a utilização de barro vermelho, a cor azul cobalto só as olarias mais credenciadas e abonadas financeiramente o podiam comprar, por ser muito caro, ( no tardoz há marcas de azul, o que evidencia no forno este foi cozer com demais faiança nesta cor pintada), também pela decoração, mas sobretudo pela numeração impressa, que no caso das terrinas são também com muita certeza de fabrico de Coimbra.
Não deixa de ser surpreendente como à partida um pequeno prato "tão mal amanhado" , acaba por se mostrar hilariante, para os amantes da faiança , divagar na sua origem e com isso deslumbramento pela graciosidade.

domingo, 18 de outubro de 2015

Faiança falante ou com legenda - AMOR fabrico de Coimbra (?)

Comprei este prato falante ou com legenda na banca do Pedro e do André na última feira de Algés. 
O preço na realidade não foi em conta, mas foi em relação ao preço marcado, pelo estado,  partido.
Impossível resistir mal os meus olhos nele caíram...

Pintura em monocromia em azul e aguada, ao centro decorado por um coração trespassado com uma seta, e a palavra AMOR.No limite do covo largo filete pintado a aguada limitado por filetes finos em azul.A aba apresenta-se com cercadura floral. No limite do rebordo um filete fino em azul.


Restaurei sem preocupação, apenas para se aguentar
Provável fabrico  de Coimbra, primeiro quartel do século XX.
 Tardoz  evidencia buraquinhos na textura de bom esmalte
Ao mostra-lo à minha filha logo mostrou interesse em o pôr na sua casa-, o primeiro!
Já o levou, ficou-se a olhar, porque achou o restauro muito bom...
E quer mais dois em azul!

Falar das Coisas que eu Gosto- História, Ansião e Faiança!

Foi o  Programa Visita Guiada ao Forte de S João Baptista na Foz do Douro no Porto  que vim a correlacionar o motivo vastamente pintado no ...