sábado, 6 de fevereiro de 2016

Travessa motivo floral de aba martelada e bicada, fabrico norte, Darque ou Vilar de Mouros(?)

A semana passada  ao descer a escada de ferro para ir ao quintal do vizinho apanhar molas, andava a vizinha da minha filha, a D. Amélia, senhora com ar de minhota, na poda dos arbustos, na conversa reparei que tinha no meio do jardim um prato Sacavém, estampa "cavalinho", apesar da aba brucinada, ainda assim irradiava beleza, fosse pelo verde autentico, o bebedouro para os melros seja a paga das sementes de flores que lhe trazem...lançou-me o convite para ir à sub cave, onde deparei com um mundo de coisas velhas, desde cadeiras que foram de Lisboa para Viana do Castelo e voltaram, loiças e vidros, malas, candeeiros, num caixote empoeirada descobri um tardoz de uma travessa, que hesitou em me oferecer por estar "gateada" achando que não valia nada, ainda trouxe um prato Massarelos e uma saboneteira em esmalte, para pregar numa parede da casa rural.
Muito obrigada D Amélia pela gentil cortesia das ofertas.
A travessa em faiança em formato ovalado de aba recortada e relevada em cartelas ou reservas em cor monocromática esmeralda(?) e esmalte lácteo a recebeu de herança do seu sogro.
O motivo central desenvolve-se do fundo até ao centro com uma ramagem floral , graciosa em policromia
Pintura delicada com as famosas folhas ditas de agrião
O tardoz em textura homogenea apresenta a aba com transparência da pintura da frente, uma característica que se encontra numa determinada época na faiança de Coimbra e Fervença, eventualmente outras(?).
 Esta decoração floral já antes a apresentei
http://leriasrendasvelhariasdamaria.blogspot.pt/2014/12/travessa-em-faianca-aba-relevada.html

A que acrescento esta enfusa muito semelhante
O fabrico desta travessa poderá atribuir-se ao início do século XX, por altura da implantação da República, porque  Coimbra também fabricou este tipo de aba assim martelada, como poderão ver no post atrás mencionado. 
E a Fábrica das Devezas também, foto retirada dum site de leilões, por ostentar a marca

  Enfusa em grés da minha coleção
Atendendo à tonalidade do esmalte não me parece seja Fabrico das Devezas, porque o foi num branco branquíssimo, a rivalizar a porcelana, poderá ser eventualmente fabrico norte (?) de uma outra fábrica que copiou o motivo porque na verdade o verde da folha de agrião é mais escuro, poderá ser Darque sendo que supostamente Coimbra também o pintou, mas num verde ervilha, mais aberto.
Ou será fabrico de Vilar de Mouros (?), atendendo ao esmalte lácteo e aba bicada ?.
O tardoz apresenta transparência usual em Fervença e também Coimbra.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Travessa em faiança com motivo floral de Alcobaça (?)

O meu colega Paulinho Filipe, na feira de Setúbal encontrou esta travessa completamente suja que acredito comprou em estaminé de chão. a custo quase zero...apressado se chega à minha banca para perguntar se valia alguma coisa...Passados minutos volta de novo com a travessa lavada que pedi para fotografar, por a achar interessante.
Peça em faiança de formato oval, de rebordo ligeiramente ondulado.
Ao centro um ramo de flores em policromia elegante, ao limite do covo uma grega a meia tinta em preto, seguida de dois filetes um em amarelo torrado e outro em azul. A aba com estampa floral a vermelho.
Tardoz translúcido em pasta homogénea com "seis gatos", é porque o dono tinha estima na peça(?).Lamentavelmente foi mal colada há anos com cola amarela...
O mais interessante é ter gravado na massa o algarismo "4", que tenho algumas peças numeradas, mas sem saber se o número seja relativo ao tamanho da peça (?) ou à fabrica que além do nome também se identificaria por algarismo(?)
Com grande probabilidade ser fabrico dos meados do século XX. Agora saber a origem?
Poderá ser eventualmente fabrico de Coimbra, pelo motivo e pelo uso do vermelho.
Mas esta travessa inclino-me para fabrico de Alcobaça, no inicio da OAL, anos 30 (?).Porque copiama à semelhança do que se fazia em Coimbra, conseguiram peças de melhor qualidade, sobretudo em textura e grandes pintores, neste caso há pétalas em formato de coração, seriam bons amantes...
Saliento que só nestas duas terras tenho encontrado peças numeradas.

Faiança de aba recortada e relevada com paisagem de casario norte ou Coimbra(?)

Encontrei esta travessa oval em faiança na feira de Algés. Não que seja exuberante, o que me chamou a atenção foi o rebordo relevado como Sacavém e a Vista Alegre, também produziram assim peças. Agora saber quem copiou quem, não faço ideia, porque julgo a inicial é copiada de Inglaterra(?).
O motivo central da travessa apresenta-se em policromia com um rio ( Mondego ou Douro) pintado em azul claro e nele barcos, nas margens casario alto com telhados diferentes a vermelho, defronte na outra margem com cúpulas e arvoredo a verde ervilha. No céu supostas aves.
O rebordo pintado em esponjado a meia tinta num azul desmaiado.
Tardoz  na evidência do rebordo recortado, esmalte em pasta homogénea no tom "branco sujo". Marcas das trempes.
Com um pequeno "cabelo com um "gato".
Foi utilizado barro vermelho, nota-se no escorrido.
Apesar de não estar marcada, poderá tratar-se de faiança de fabrico de Coimbra  ou do norte (?)
Motivo de paisagem com um rio ao meio a mediar as margens, pode ser o Mondego ou o Douro.
Uso do barro rosado, pesada e recorte na abas, atributos a ambas.
A tonalidade do esmalte escura aventa ser fabrico de Coimbra. Porém  pode ser do norte (?) pela aba relevada.
Provável fabrico finais do século XIX inicio de XX (?).
Lembro um prato na casa de um familiar que tinha sido herdado de um padre na região centro, com muita certeza produção de Coimbra, decorado com a  mesma pintura a mais pequena, à direita. Por isso seja a minha inclinação por hora desta travessa para fabrico de Coimbra.
 Mereceu honras na sala, claro destronou outra!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Terrina em faiança José Cardoso de Coimbra

Encontrei em Setúbal uma terrina em faiança sem tampa, assinada na pasta  José Cardoso 5 Coimbra.

Recentemente foi publicado um novo livro sobre a Faiança Coimbrã pelo Museu Machado de Castro de Coimbra, que ainda não tenho.
" A história da cerâmica de Coimbra tem, a partir de agora, mais uma obra de referência: ‘Louça Tradicional de Coimbra 1869-1965’, da autoria de António Pacheco, conservador responsável pela coleção de cerâmica do Museu Nacional de Machado de Castro. Trata-se de um livro que dá a conhecer a produção das olarias tradicionais de Coimbra: as técnicas, os estilos, os centros produtores e os seus principais fabricantes. Nomes como Alfredo Oliveira e Viúva de Alfredo Oliveira estão em destaque nesta obra, juntamente com Retiro das Lages ou José Cardoso & Cª. A Faiança Ratinho, o Cantão de Coimbra, a Cerâmica Falante, a Louça de Vandelli e Faiança Historiada surgem igualmente em grande relevo. O espaço temporal que ocupa a análise desta obra dá continuidade a outra do mesmo autor: ‘Cerâmica de Coimbra do Século XVI-XX’, publicada em co-autoria com Alexandre Nobre Pais e João Coroado. ‘Louça Tradicional de Coimbra 1869-1965’, lançado sob a chancela da Direção Geral do Património Cultural, é um livro que vem agora oferecer um novo olhar sobre as olarias coimbrãs e mais especificamente sobre uma produção ainda pouco divulgada, que chegou a concorrer contra grandes unidades industriais portuguesas, como a conhecida Fábrica de Sacavém."
O que credencia sem erro esta peça como sendo da fábrica "Retiro das Lages ou José Cardoso e Cª" Curiosamente já tinha na minha coleção um pequeno prato de rebordo recortado marcado "LAGES"
A terrina apresenta-se em formato oval, de bojo com quebradura para lhe dar elegância .
O rebordo do pé e o rebordo da abertura ornado com um fino filete em azul, e triplo a quebrar as asas, ao meio do bojo um grande ramo de flores em policromia , e junto das asas uma flor estigmatizada em cor monocromática a castanho escuro.


O nº 5 não sei a que se refere, se à fábrica, além do nome se identifica também por numeração numérica (?)  se ao tamanho da terrina (?), porque tenho outras peças com numerações que vão do 1- 2 - 3 - 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Forno de cerâmica datado entre 1450 e 1530 da Mata da Machada

Tomei conhecimento do campo arqueológico da Mata da Machada e dos seus fornos cerâmicos no curso de faiança do século XV a XVIII decorrido no centro de arqueologia em Almada. Esta olaria da Mata da Machada permitiu elaborar as tipologias que faltavam até à segunda metade do século XVI , quando são introduzidas no mundo urbano as modas italianizares e quase em simultâneo as cópias das porcelanas orientais" . 
Tanta vez em rota de passeio o caminho ao longo do esteiro do rio de Coina a caminho da Moita, com a placa sinalética à direita em frente da Base dos Fusileiros, mas sem nunca ainda ter parado para o descobrir, mais para a primavera.
Em 1980 uma descoberta fortuita alertou para a existência de vestígios que indiciavam um centro produtor oleiro . Em 1981 realizou-se a primeira escavação arqueológica dirigida por Cláudio Torres que, numa área com cerca de 1000 m2 pôs a descoberto um forno cerâmico dos séculos. XV/XVI. 
Este local foi escolha por beneficiar de recursos naturais, como a argila e lenha e, ainda, da proximidade com o rio Coina, que permitiam um escoamento rápido das produções oleiras.
 
A localização da olaria da Mata da Machada na freguesia de Palhais no concelho do Barreiro explica-se pela grande abundância de lenha, combustível necessário ao aquecimento dos fornos e pela existência de matéria-prima no local: a argila. Situada numa imensa mata de pinhal, de jurisdição real desde o século XIV- certamente para o fornecimento de madeira e resina para a construção naval e para as casas dos seus habitantes, então na época o único material combustível ( sendo que o gasto era tanto que escasseava em Lisboa e com isso o povo se revolta, tendo o rei mandado encerrar a fábrica de vidro de Coina sendo transferida para a Marinha Grande, onde havia o pinhal de Leiria e areia, essencial para o seu fabrico) a lenha servia também para alimentar com lenha e carvão a fábrica de biscoito de Vale de Zebro e ainda as minas de azogue - o complexo oleiro da Mata da Machada, com a sua fonte de água doce a escassos metros e um embarcadouro, reunia as condições que o tornaram durante muito tempo um importante fornecedor de Lisboa.
Na olaria da Mata da Machada se produziam utensílios. O espólio cerâmico proveniente da escavação desta olaria divide-se em duas grandes tipologias: louça de uso caseiro e peças de uso industrial, cerâmica vidrada e por vidrar: 
Na primeira categoria integram-se as panelas, candeias, malgas, tigelas, escudelas, copos, pratos, caçoilas e peças de armazenamento de maiores dimensões como cântaros, alguidares, talhas e potes a par de pesos de rede, telhas e tijolos para a construção.
Citando o autor da brochura Cláudio Torres - "O barril, cuja forma até então é desconhecida, teria como função o armazenamento de água fresca durante as longas viagens marítimas."
Barril e placa ou forma de biscoito - placas de variados tamanhos ,cuja utilização deve estar relacionada com uma tradição ainda hoje viva nos Açores ( o bolo de pedra, o bolo de tijolo ou o bolo do Pico, em que a massa de pão é espalmada e cozida sobre uma placa de cerâmica assente num fogareiro. Seria, talvez, uma das maneiras de fazer pão durante as longas travessias marítimas, e que perdura na tradição insular "
O bolo do caco na Madeira
O bolo do caco é um pão de trigo típico da Madeira e Porto Santo. De origem árabe, este pão, elaborado à base de farinha de trigo, é achatado e de bordas arredondadas.O seu nome deve-se à forma como, até há bem pouco tempo, era cozido: numa pedra de basalto, denominada “caco”, sobre brasas escaldantes. 
Hoje em dia, utiliza-se a chapa de ferro aquecida por gás industrial, em detrimento do caco de pedra.No passado, muitas vezes este pão era feito somente para aproveitar o resto de uma amassadura de pão de casa. 
Nesta olaria foi descoberta ainda uma tipologia cerâmica, identificada na época como “forma de biscoito”, a qual serviria para fabrico deste produto nos fornos de Vale de Zebro, para serem levadas nas caravelas para a descoberta de novos mundos.
"A panela o recipiente com uma longa história na cozinha ibérica e cuja evolução formal continua nesta época, de linha iniciada em finais do século XII."
A malga é um novo modelo originário da Andaluzia que se generaliza entre nós a partir de finais do século XIV, com este nome,certamente herdado da cidade de Málaga." A tigela diminui de tamanho adaptando-se a uma nova função individual na mesa do respasto, perdendo a grande dimensão, de onde todos comiam
( sendo que no século XX ainda no nosso país, nas beiras em ambiente rural os filhos picavam todos da mesma bacia ou palangana). Aparece a escudela de orelhas, o prato e o copo."
Pequenas taças ou copos azados e na direita malgas
Tigelas e na direita copos

As candeias de azeite
Forno

"Forno cerâmico fabril, construído segundo o processo de construção da alvenaria com ligação de argamassa, com interiores abobadados e bocas em arcos quebrado, apresenta uma cronologia entre 1450 e 1530. Faz parte de uma olaria da qual apenas foi escavado um forno na década de 80.
A "zacara da terra dos sarracenos" França do sul, século IV
"O espólio cerâmico proveniente da escavação desta olaria divide-se em duas grandes tipologias: louça de uso caseiro e peças de uso industrial.
Na primeira categoria integram-se as panelas, candeias, malgas, tigelas, escudelas, copos, pratos, caçoilas e peças de armazenamento de maiores dimensões como cântaros, alguidares, talhas e potes. Também se fabricavam telhas e tijolos para a construção.
A segunda categoria de peças é maioritariamente composta por um tipo de artefacto industrial: as Formas de Purga do Açúcar, ou “Pão de Açúcar”."

 Julgo que no Museu de Alcácer do Sal existe um exemplar de forma pão de açúcar(?)
"A segunda categoria de peças é maioritariamente composta por um tipo de artefacto industrial: as Formas de Purga do Açúcar, ou “Pão de Açúcar”, a peça mais fabricada neste forno e destinada à exportação para os engenhos açucareiros insulares.
Do lado cristão, a primeira referência surge em 1366, em que um pão de açúcar é inventariado entre os bens da Ordem de Avis- o que mostra bem a sua raridade(Dias Arnaut).
Formas de açúcar semelhantes às da Mata da Machada foram assinaladas em Barcelona reempregues no enchimento das abóbadas da Santa Maria Del Mar e fabricadas, pelo menos, em meados do século XIV em Oliva junto a Valência.A partir de 1466, o infante D. Fernando dá um impulso decisivo à indústria açucareira da Madeira.Em 1501 sabe-se da existência de umas formas grandes consideradas prejudiciais à purgação pelo que o rei recomenda que sejam todas iguais e que para tal fosse fornecida uma bitola aos oleiros do reino, de modo a que 6 pães de açúcar pesem uma arroba.
A toponímia é marcada perto da Moita com o nome Pinhal das Formas.

"Em estudos recentes admite-se ter funções completamente distintas destas. As peças consistem em placas de barro de forma circular, com dimensões diversas. Tais artefactos constituiriam utensílios de olaria denominados “Pratos de Torno”, sobre os quais o oleiro fazia as peças e transportava-as para o local de seca, antes de entrarem no forno e serem cozidas. Esta é ainda actualmente, decorridos que são mais de vinte anos sobre a realização da primeira campanha arqueológica, uma das poucas olarias conhecidas dos séculos XV e XVI, o que atesta a sua importância no contexto nacional.
Recentemente foi posto em evidência um local que pode levar à descoberta de um novo forno de arquitectura industrial, manuelina." Supostamente construído após o terramoto de 1755 que destruiu Coina e os fornos do biscoito de Vale Zebro, que teriam sido reconstruídos com arquitetura manuelina, e aqui na mesma (?).

Fontes
http://www.cmbarreiro.pt/
http://memoriaefuturo.cm-barreiro.pt/
http://www.monumentos.pt/
https://www.geocaching.com
Brochura editada pela câmara do Barreiro
http://nomundodasescolhas.com/

Falar das Coisas que eu Gosto- História, Ansião e Faiança!

Foi o  Programa Visita Guiada ao Forte de S João Baptista na Foz do Douro no Porto  que vim a correlacionar o motivo vastamente pintado no ...