segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Saladeira cantão popular fabrico de Miragaia(?)

Hábito falar-se que aquilo que tem de ser nosso o será...Na verdade é que me deparei pela primeira vez na feira  de Oeiras há mais de 4 meses, com esta peça a um preço exorbitante, pior do que isso "escancarada dos gatos" em três partes nas mãos da vendedora que a pregoava...
Este mês mal entrei na mesma feira reparei nela já colada numa pequena banca a um preço convidativo e logo ajustei em baixa para trazer comigo.
Apesar das  esbeiçadelas que são recentes, a peça exala um encantamento que me regala o olhar.
Saladeira, bacia, lavanda-, julgo que todos os nomes se adaptam à peça sem a desprestigiar em qualquer função que tenha servido.
Pela moldada, oval, funda, com as abas em caneludos ou gomos de rebordo relevado, recortado em ondinhas com pegas salientes . 
Pintura  manual em monocromia em azul sobre branco.
Motivo decorativo "cantão popular" ao centro, com o pagode ladeado por dois supostos salgueiros. 
Os gomos das abas apresentam riscos crescentes que terminam em bico que lhe conferem graciosidade apesar da ingenuidade.
Textura leve em barro branco, esmalte  translúcido brilhante a chumbo, e a ingenuidade do desenho; seja no formato das árvores com términus em bolas, a crista bem delineada em cima do pagode e a estilização de outra árvore em traços bem alta, junto da árvore na esquerda, são evidências de fabrico do norte -, Miragaia (?).
Ao centro  quatro falhas de desgaste que vinham pretas de sujidade, se juntar a falha na aba e a do tardoz no friso do frete revelam a cor do barro proveniente de Lisboa que aportava em Gaia, julgo sem dúvidas(?) o seu fabrico finais do século XVIII, início XIX (?).
O tardoz apresenta uma esbeiçadela no frete do pé , coisa recente motivada quando a peça se desmembrou, pois a humidade e o calor são um perigo para a faiança, apesar de "gateada". 
 
 
  
 
No Livro da Fábrica de Miragaia encontrei esta bacia marcada Miragaia, peça mais requintada obra de Rocha Soares
 

Num catálogo "Mostra de Faiança Portuguesa" de 98
Não sei se estará bem catalogada (?) por não ter marca-, à prior aventa ser fabrico de Coimbra (?) pelo rebordo e formato do casario, apesar do rodapé em forma de barco, ser uma carateristica do norte, Coimbra também o pintou.
Na mesma dúvida a semelhança com esta minha terrina nas pegas e no esmalte se é fabrico Miragaia ou Coimbra(?).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Faiança esponjado de pincelada livre de Coimbra (?)

Encontrei este prato na Ladra, pela decoração não apaixona à primeira vista muitos admiradores. No entanto gosto do tamanho, da cor, e sobretudo deste emaranhado de borrões que nem são esponjados, nem escorridos, nem coisa nenhuma, serão arabescos de pincelada livre, seguidas, como quem põe vistos em conferências(?) partiam do covo para a aba, aparentemente simétricas ao centro para depois à medida que se fechava no bordo de qualquer jeito e maneira.
Prato com 31,50 cm de diâmetro pintado a monocromia em azul.
Interessante perceber que o esmalte pela frente é a estanho.




Simples e belo







O tardoz  apresenta a tonalidade creme que autores chamaram "grão", não sei a técnica que ao tempo era usada como pigmento para dar esta tonalidade, 1 a 2% de óxido de antimónio ou possivelmente de um seixo de xisto? depois de moído na Mó de oleiro, a mistura do banho final nessa tonalidade -, afinal só servia para poupar no estanho, porque apenas a frente era esmaltada.  
Produção do século XIX de pintura manual.
Fabrico de Coimbra(?).
Baseio-me ao tamanho-,  31.50, textura, peso, tom azul, motivo, e o tardoz da cor grão que não engana!
  • Pese embora por Aveiro e no norte, Gaia, os esponjados foram "rei".
Há muito que desejava ter assim um exemplar. Comprei-o a um senhor que o tinha na sua casa do Algarve que desmantelou, segundo as suas palavras. Apresenta uma esbeiçadela no rebordo com um pequeno "cabelo" possivelmente pela aranha em ferro artesanal que o manteve anos numa parede, ainda existe gente incauta que ao retirá-los, negligenciam o cuidado devido, que as peças pela antiguidade deviam merecer.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Prato de brinde da Real Fábrica de Sacavém

Pratinho BRINDE 
Real Fábrica de Sacavém 1885 - 1894
Apresenta  aba levantada, recortado frisado às ondinhas.
Decoração floral em policromia  que irradia da aba para o centro.
A publicidade apresenta-se ao meio dos dois ramos, a preto a legenda e o ramo de flores
LEMBRANÇA
DAS
CALDAS DE MOLEDO
No final do século XIX frequentadas por gente da alta, aqui tinha chalets e casas de veraneio
O carimbo é falsificado!
Pois é.
Todo o cuidado é pouco.
Uma situação que se encontra com alguma frequência.
Supostamente quem tinha o pratinho, decidiu colar o carimbo para o vender melhor...
Terrina da Real Fábrica Sacavém, da minha coleção, sem marca, mascarimbo falsificado
Pratos do Fábio - Trapos, cacos e velharias.
O mais pequeno igual no formato , só na diferença no filete a dourado no limite do rebordo.

Uma cuspideira ou escarradeira-, o nome é repugnante, mas a peça é interessante da minha coleção com a mesma decoração
Sacavém, apesar de não ter marca ,apenas a numeração 13

Prefaciando o comentário de um amigo Amarildo "Sei pouco sobre a Sacavem, mas do pouco que sei é que são louças de bela presença e com características bem fortes.
Há peças que dispensam qualquer marca para que sejam identificadas.Outras requerem tanta pesquisa, memória e intuição...
Não sabia que se falsificavam estes selos da Sacavem. E ao que parece, segundo sua informação, é uma "falsificação" de uma peça genuína. Coisa do mundo das louças e seus loucos ajuntadores (e também vendedores)."

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Floreiras das Caldas de Maria dos Cacos ou Manuel Mafra (?)

"Detentora de uma assinalável e antiga tradição, a cerâmica caldense é conhecida documentalmente desde final do século XV, época da fundação da vila e da construção do seu Hospital (o primeiro no mundo a tirar partido da acção terapêutica das águas) e os conhecimentos que temos dessa cerâmica, foram veiculados, por Frei Jorge de S. Paulo, cónego lóio, provedor do Hospital Termal e autor da história da Fundação do Real Hospital até 1653, redigida cerca de 1656, no qual assinala a existência de boa matéria-prima em Caldas da Rainha para a laboração de louça, “barro tão perfeito que serve de matéria para se obrar grande cantidade de louça vidrada, todos os anos”.
O autor deixa ainda perceber as principais tipologias de louça produzidas em Caldas, desde as mais simples, para abastecimento do Hospital e da Vila, às mais requintadas, “(...) e da verde se fazem peças de estremados feitios, recebem tal lustre e polimento como espelhos e brilhão como esmaraldas sem que lhes levem vantages seus resplendores...”.
 "Louça apreciada pela família real, por nobres e cortesãos que a adquiriam e levavam consigo para a corte “(...) toda a pessoa de porte faz seus empregos nestes aprazíveis brincos quando se partem levando-se para a corte e a Casa Real, onde se apresentou à Rainha D. Luísa, no ano de 1653, uma caçoula de tão peregrino artificio que estimou como se fora obrada nos metais da maior estimação (...)”. 
Exemplares da cerâmica antiga das Caldas revelam-nos o seu carácter especial. A mais humilde peça de olaria ostenta sempre algum elemento decorativo que embeleza a sua utilidade. As bilhas são rodeadas de círculos simples ou decoração que pode ser com uma grega gravada ou relevada no barro, ou um fino sulco, os potes com caneluras em redor do bojo e boca e especialmente os vidrados, amarelo ferro, verde chumbo, verificando-se a existência de peças já ornamentados com motivos relevados de carácter erudito, como rosetas e mascarões, de influência renascentista e oriental e que se destinavam a uma clientela mais exigente." 
"Manuel Cipriano Gomes, conhecido como "o Mafra" por ter nascido naquela localidade, veio  para as Caldas, trabalhou com a mítica oleira Maria dos Cacos e acabou  por ser o seu sucessor tendo ficado com a sua oficina a partir de  1850. 
Dez anos depois, Mafra fundou a sua própria fábrica e começa a produzir peças sob influência do neopalissismo europeu (produzindo peças inspiradas na natureza como tinha feito o ceramista francês da Renascença, Bernard Palissy). Esta tendência influencia  a cerâmica na Europa, na segunda metade do século XIX e Mafra vai juntar a esta tendência características específicas, reproduzindo a natureza desta região nas suas obras.

Em 1870, o ceramista frequenta a corte de D. Fernando II e “recebe autorização para usar a coroa real nas suas marcas fabris”, disse a investigadora. Passa a assinar M.Mafra/Caldas/Portugal e com o desenho da coroa real.
Como teve contacto com produções europeias da colecção real e de outros coleccionadores, começa também a introduzir técnicas que constata nessas obras mais modernas: a policromia e ainda a técnica do musgado.  A partir de então Mafra participa em exposições internacionais. A primeira foi em Viena de Áustria, onde recebe uma medalha de mérito. Na exposição Internacional de Paris em 1878 e na do Rio de Janeiro que se seguiu, recebeu medalhas de prata.
O Inquérito Industrial de 1881 refere-se ao ceramista como “O Palissy das Caldas”
Mafra obteve sucesso internacional, mas segundo a oradora, “trabalhou de forma  intensa e não teve tempo para fazer a sua própria divulgação, consumindo a sua vida numa obra que lhe sobrevive, imortalizando-o”.
Uma das marcas de mafra


Comprei duas floreiras na mesma banca onde haviam outros objetos oriundos da mesma casa "uma jarra de altar, dois bules e outro minúsculo, todas as peças na mesma cor" não marcadas, como sendo obra do Manuel Mafra. 
Podem ser. Dúvidas se a Maria dos Cacos, já produzia cerâmica relevada?
Uma coisa é certa são das Caldas da Rainha, e muito antigas. Possivelmente do inicio quando  o Mafra se chegou a Caldas e começou a trabalhar com a Maria dos Cacos(?).
Lamentável o colega que as adquiriu  por terem estado anos e anos perdidas nalgum sótão arrecadadas, o seu estado, ainda se nota nos relevos mais baixos, de patine esbranquiçada pelo pó  e humidade no tempo.
Decidiu em as limpar com produto que lhe conferiu brilho, mas se nota nas flores, como se fosse verniz, acredito as pétalas partidas o foram agora na limpeza...
Isto para dizer que não houve cuidado exigido, apenas pensaram em ganhar dinheiro.
Floreiras aparentemente grosseiras, de bordo em círculos relevados, ligeiramente picotados, apresentam no bojo um par de anjinhos relevados , um de cada lado, de braço no ar, segurando a flor  em cor laranja, as floreiras terminam em bico saliente como se fosse um pináculo, pintadas em monocromia castanha, típica no vidrado das Caldas incrementada pelo Mafra.Não sei como a obtinha, porque não sendo compacta, ao jus do esponjado com muito brilho.
Sem qualquer marca
Peças utilitárias  de cariz ingénuo, usadas em decoração de oratórios em casa, ou nas tabernas.
A Maria dos Cacos não assinava as peças.
 Apesar de peças sóbrias exalam beleza rara.
Foi o meu marido que primeiro olhou as peças inclinando-se para me oferecer a jarra de altar, oferta que declinei por a achar maior do que o habitual, e tendo já outros exemplares, decidi-me pelas floreiras para colocar junto do meu oratório.

Mafra e Bordalo
"Só que Manuel Mafra, apesar de reconhecido internacionalmente, representado em exposições internacionais em Paris (duas vezes), Viena, Filadélfia, Londres e Rio de Janeiro, sendo premiado e exportando largamente as suas peças, era um autor protegido por D. Fernando II pelo que “sofreu um apagamento injustificado enquanto artista, face à figura e obra de Rafael Bordalo Pinheiro”, contou a oradora.Este facto deu-se porque Mafra e Bordalo representavam mundos opostos e a novidade e a forma de ser de Bordalo acabaram por deixar na sombra as criações daquele antecessor. No entanto, Cristina Horta classifica a obra cerâmica de Mafra como “extraordinária”, acrescentando que esta “viria a ser a principal inspiração da produção que Rafael Bordalo Pinheiro viria a realizar na Fábrica de Faianças”.
"A investigadora deu a conhecer como se relacionaram e confrontaram  estas duas grandes figuras da cerâmica caldense e nacional: Manuel Mafra foi o pioneiro e introdutor da cerâmica artística em Caldas, enquanto que  Rafael Bordalo Pinheiro, “detentor de um percurso artístico conhecido e atraído pela cerâmica artística modelada nas Caldas, veio a adoptar o estilo na maior parte da obra cerâmica que desenvolveu na sua fábrica”.No querer conferir a Manuel Mafra “a sua tão merecida dimensão, bem como o reconhecimento tardio de um autor, cuja obra tem sido, até aos dias de hoje, mais requisitada no estrangeiro do que no seu país”.

Fontes:
http://www.gazetacaldas.com/43665/manuel-mafra-foi-o-ceramista-precursor-abafado-pelo-mediatismo-de-bordalo-pinheiro/

http://www.dezenovevinte.net/800/tomo3/index_arquivos/Oitocentos%20Tomo%203%20-%2011.pdf

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Lembrança do Papá num pratinho de Massarelos/Lusitânia

Pratinho "Lembrança do Papá"
Singelo de esmalte craquelê em branco opaco com desenho e legenda a preto.
A graça da menina de vestido e botins com o chapéu aberta à chuva...
Faz lembrar a celebre canção "Dançando na chuva"
Quando o comprei há tempos em Setúbal por se mostrar assim simples  li erradamente "Lembrança do Papa"...por não me soar bem com mais atenção reparei no acento que altera papa para papá...
Marcado com o carimbo  verde da coroa de Massarelos, no tempo que a fábrica trabalhou em parceria com a Lusitânia. 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Réplica século XVII da Fábrica Viúva Lamego

Em jeito de endereçar votos de Boas Festas para todos os visitantes apresento um prato da Fábrica Viúva Lamego, anos 64, a fazer fé na data impressa no tardoz, ainda produzido na antiga fábrica sita às Laranjeiras em Lisboa, onde depois viria a ser construída a Universidade católica. Tenho um amigo com mais de 60 anos que viveu nas imediações e com os colegas brincavam à volta dos buracos (barreiros) de onde extraiam o barro vermelho para uso no fabrico.
Dedicou-se tal como outras congénitas a fazer reproduções de decorações de séculos anteriores ao género deste que retirei do Livro de cerâmica de Coimbra, século XVII..
Fragmento de faiança encontrado em Torre de Mocorvo pelo meu amigo Prof. Arnaldo Silva  atribuído a Coimbra, com rendas.

O prato apresenta-se pintado a duas cores:azul e vinoso, sendo que o centro encerra um coração trespassado, com floreados em cima e rodapé, o início da aba  é decorado por um conjunto de três filetes em balancé , sendo o primeiro e o último em azul e o do centro a vinoso que na aba se abrem  sobre eles rendas a azul e vinoso.O rebordo em filete azul.

Que este coração vos encha de alegrias na saúde com bons olhos para derreter pestanas em boa faiança portuguesa, são os meus votos

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Palangana com flores esponjadas em loiça "ratinho"

Acabei de jantar, eis a surpresa  doce -,num ápice foi ultrapassada a barreira dos 200.038 visitantes.
Comovida, quase sem palavras, bem hajam a todos os que me contemplam na cortesia deste blog. Independentemente de algumas vezes zangada e desiludida, nunca deixei de cumprir o propósito a que me propus no compromisso da divulgação e partilha de peças em faiança, cerâmica, vidro, eventualmente madeira, lata e outras, objetos a que hoje muitos chamam artigos vintage.
Elevando o pensar em Simone de Beauvoir " O presente não é um passado em potência, ele é o momento da escolha e da ação".
Porque nesta vida todos somos confrontados com inúmeros caminhos durante o nosso percurso terreno, e temos de escolher!
Só que umas vezes acertamos, outras não.
Mas o importante é que somos nós a escolher e nós a viver do que gostamos!
Palangana "ratinha" com 37 cm de diâmetro.
Uma grande possibilidade ter servido de comedouro de galináceos, por isso picada no vidrado no covo.
Apresentava uma racha larga na aba com uns milímetros. A textura da massa pela antiguidade e diferenças de temperatura abriu e não fechou, apesar de ter estado em água mais de uma semana, mas não cedeu, foi colada e depois cheia.
Apresenta-se com uma espiral fechada ao centro em tom manganês circundada por dois filetes finos da mesma cor ao nível do covo, aba carenada,  que se abre larga, ornada a flores em  manganês esponjado de olho amarelo antimónio que se ligam em  repetição em "S" azul forte,  entre elas irrompem semi círculos em verde cobre e amarelo . O rebordo é delimitado por filete fino manganês.
Fabrico de Coimbra,  finais do século XIX, início de XX (?).
Tardoz com arrepiados e muitos buraquinhos por o barro  mais vermelho menos rolado que o branco conter muitas matérias plásticas.
O maior exemplar da minha coleção de "ratinhos", entre bacias, alguidares e covilhetes.
Neste tempo de festa e muita felicidade com o nascimento do meu querido neto Vicente, as alpargatas de lã artesanal , que vieram do Nepal-, das férias que a mãe ao saber da gravidez adiou, e a amiga  que vai ser madrinha lhe trouxe, ao olhá-las a graça ao lembrar os ratinhos, que também os há de bigodes...

Falar das Coisas que eu Gosto- História, Ansião e Faiança!

Foi o  Programa Visita Guiada ao Forte de S João Baptista na Foz do Douro no Porto  que vim a correlacionar o motivo vastamente pintado no ...