Cachepot do Senhor do Arieiro de Tavarede na Figueira da Foz

"Pelos nossos apontamentos, sabemos que, em 1892, já existia uma cerâmica, no Senhor do Arieiro, pertencente a Joaquim Russo, e que, em Novembro daquele ano, ali fora instalada uma máquina para fazer tijolo furado, que havia sido feita nas Oficinas Mota de Quadros, da Figueira da Foz.
No início de 1921, esta empresa sofreu um grande impulso nas suas diferentes secções e aumentou o capital social para 150 contos. “... 
Além da fábrica de telha, tijolo e telhões, ao Senhor da Areeira, Tavarede, de cujos fornos sai diariamente larga produção-, faz a Cerâmica importantíssimas transacções com a venda de óleos, gasolina, material eléctrico, etc., tendo a representação de algumas das mais consideradas casas de Lisboa, Porto e estrangeiro.
Em pleno funcionamento, no mês de Setembro de 1922, a imprensa local foi convidada para uma visita às suas instalações. A reportagem foi a seguinte: “A convite do sr. dr. Ernesto Gomes Tomé, activo gerente da Cerâmica e Exportadora Lda, desta cidade, visitámos, segunda-feira passada, todas as instalações da fábrica do Senhor da Arieira.
  • Fabricava pela primeira vez louça branca, razão porque o activo gerente convidou os representantes dos 3 bi-semanários locais. A secção de louças, primeira instalação que visitámos, estava engalanada com verduras, flores e bandeiras. Pelo chão em pequenos montes, estendia-se a louça da primeira fornada, fabricada com perfeição, que se nota, fazendo-a vibrar, tocando-a.  
  • Além de pratos, malgas, canecas, bacias e jarros de pintura vulgar, notou-se a tentativa que alguns operários fizeram em alguns pratos, pintando figuras nuns e frases ingénuas noutros, com sejam, Amor, Vivam os Noivos, etc."
Cerâmica Exportadora, Lda ao Senhor do Arieiro Tavarede/Figueira da Foz


"Belo trecho de Mestre José Ribeiro, “O Pardieiro”, incluído na peça “Cântico da Aldeia”. Foi seu intérprete o também saudoso João de Oliveira Júnior."

"Junto a ti, ó velha Quinta saudosa,
Aqui me tens - o Pardieiro,

Teu vizinho e na desgraça dolorosa

Companheiro.
Também saudades são meu alimento.
O que eu fui... e o que hoje sou!
O recordar, para mim, é tormento...

No tempo de meu avô,

Dos Ruços, do Serol, vindos de Brenha,

Meus fornos queimaram muita lenha
A cozer barro vermelho,
Telha e tijolo, cerâmica grosseira
Que se espalhava por todo o concelho
Da presunçosa Figueira.

Vieram depois outros oleiros

E com os Ribeiros

Surgiu a faiança, barata e graciosa:
Travessas e pratos bem pintados,
Os potes vidrados,
Louça para a cozinha e para a mesa,
De pintura ingénua e maliciosa,
Com arte e com beleza.

Depois... nos fornos o fogo se apagou,

E na mão hábil do oleiro

- Dedos cariciosos, o pé ligeiro -
A roda enfim parou.
Do barro dúctil não mais saíram peças
De variado jeito:
Os pratos, as canecas, as travessas,
As cântaras airosas,
Com pinturas ingénuas, caprichosas,
De pitoresco efeito,
Ricas de intenção e vária fantasia...
Morreu a olaria!

Depois... Da cerâmica a outras mãos passei.

Que alvoroço! Que nova e grande esperança!

Vinha a indústria, o progresso, a abastança,
Nem eu sei!
E uma outra fábrica se ergueu!
E levantou-se a grande chaminé
Que, como em grito de fé,
Parecia assim anunciar ao céu:
- Eu sou a Fábrica de Conservas, de sardinha
E de outros peixes também!
Aqui não faltará trabalho a ninguém!!

Mas... má sina atrás de nós caminha...

Parece que medonho vendaval,

Terramoto brutal,
Em campo de ruínas a Fábrica mudou!
Triste pardieiro - eis o que ora sou!"

"Na Junta de Freguesia de Tavarede estão expostas algumas peças com a indicação de terem sido fabricadas na fábrica do Senhor da Arieira"
Tavarede, desde 1981 que o paço é pertença camarária. Estranho sentir que as urbanizações se apoderaram do espaço na envolvente, quase o anulando na arquitetura quadrada e da torre manuelina, pior os azulejos, o antigo dono, dizem os retirou e vendeu para o Brasil e até lá foi levar alguns...Ouvi  da boca de uma vizinha, algures...
Recordo desde sempre o espaço emblemático quando ia a banhos à Figueira.
Sinto uma amargura  não o ver restaurado.
O mesmo da produção de faiança. Mas pior, o Museu da Figueira, não ter exposta nem uma única peça no seu concelho fabricada, e as tendo nas reservas.Não se entende o pensar de gente que aufere bons ordenados e não faz um trabalho meritório engrandecendo as terras em brilho, no prazer de mostrar as suas riquezas.Pois fiquei defraudada quando o visitei, apesar de outro espólio de grande valor.


Quis o destino que desse de caras com um cachepot assinado ARIEIRO  S e duas letras  F P que devem ser do nome do pintor.
Caricatamente o vendedor dizia-me" isto é da fábrica Arieiro ali onde é a CGD..." respondi, olhe que não, lá foi a fábrica Lusitânia....Silêncios!
Depois acrescentou, "isto esteve numa garagem 7 anos, já vendi outra peça mais pequena, também assinada..."
Devo confessar que na primeira impressão achei que podia ser Areeiro em Lisboa, porque na zona oriental, desde a Almirante Reis até ao Bairro das Colónias, existe uma dimensão brutal de altos fornos, alguns escondidos pelos prédios, a semana passada descobri outro na Rua Newton, só possível porque tive o privilégio de visitar um 5º andar para apreciar as vistas sobre o Tejo, além do  que existe e conhecido como forno do Tijolo, das chaminés do Desterro onde estive há meses, existe outra junto da  casa "Sopa dos Pobres" e,...
Pintado a monocromia num tom esbatido do manganês. Junto ao pé e no rebordo apresenta um largo filete com cartelas e dentro delas riscas em viez, sendo a primeira larga pintada a cheio.No início do bojo irradiam grinaldas que na ligação tem pendente, ornadas a  riscos em cima e em baixo. Ao meio do bojo uma barra de flores ligadas por caracol grande que se enlaça noutro mais pequeno num trio de folhas.O esmalte apresenta-se acinzentado.
Se não estivesse marcado passava com grande facilidade por outra fábrica mais sonante com Constância e outras.

 
A peça revela muita qualidade de fabrico e de pintura que é manual.
 Por dentro o esmalte  acinzentado, craquelê.
Analisando o que existe sobre esta fábrica, será produção século XX, supostamente anos 30/40.
A fábrica Carvalhinho em Gaia, fabricou cachepots semelhantes a este formato.

FONTES
http://tavaredehistorias.blogspot.pt/2011/09/os-quatro-caminhos-do-senhor-do-arieiro_09.html
Fotos google

Comentários

  1. Cara Ysa,

    Parabéns pela sua oportuna e interessante postagem dando a conhecer a todos nós uma fabrica e uma produção que desconhecíamos (pelo menos nós).

    A peça é deveras interessante e marcada, o que permite não haver duvidas.

    Boa semana e mais postagens!

    Jorge Gomes

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  2. Caro Jorge Amaral, muito obrigado pela cortesia e pelo comentário.
    Para nós amantes da faiança, é interessante desmistificar outras fábricas de faiança, que foram tão importantes no seu tempo, e não apenas uma maioria que se valoriza aos dias d'hoje. Como referi no post é lamentável a autarquia pouco ou nada fazer para valorizar o seu passado, o que acontece quando o pelouro da cultura não tem gente com perfil para o cargo.
    Retribuo votos de boa semana
    Isabel

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